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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

O que é a vida?


A vida ensina em todas as situações vividas, sejam elas boas ou ruins. Mas, aqui, hoje, eu quero falar das ruins. Porque são essas que vão fazer você, provavelmente, cometer menos erros lá na frente e desfrutar de vida melhor. O saudoso Abujamra – agora substituído em seu programa, Provocações, por Marcelo Tas – perguntava a seus convidados e agora é copiado: o que é a vida?

Como eu jamais serei entrevistado pelo mestre Abujamra, tampouco devo ser pelo seu sucessor, usarei o meu espaço, que é este, para dizer o que é a vida:

- A vida é uma sucessão de equívocos, onde a falta de experiência ou a insistência no que não deu certo são as ferramentas utilizadas para o aborrecimento;

O que é a vida?

- A vida é um conjunto de ações temerárias, recheadas com pitacos de ações assertivas, que mesmo sendo te cobram um preço na frente;

O que é a vida?

- A vida é a única coisa que nós temos, sem opção de escolha. Porque até a morte é uma parte da vida, inexistindo sem a primeira. A vida é uma linha do tempo onde nós construímos o que queremos ser, tendo que desvencilhar-nos de tentáculos que nos levam ao fracasso do ser quem queremos.

O que é a vida?

- A vida é um jogo de reflexão, onde construímos e desconstruímos teorias que nós mesmo plantamos e outras que plantaram em nós. E essa é a melhor parte dela.

Eu me emocionei escrevendo isso. Não emoção de chorar, mas de esfregar as mãos, sorrir sozinho, franzir o cenho e até suar e tremer um pouco. Descrever a vida não é fácil. Poucos conseguiram fazer mais de duas vezes no “Provocações”. O que você acha que a vida?

Dito várias vezes, sob meu olhar, o que é a vida, eu chego num ponto desse texto que pode te desanimar. Contudo, é uma conclusão que você provavelmente teria se tivesse feito essa reflexão antes. A vida é um errar contínuo. Você conhece alguém que, com qualquer idade, de tanto errar aprendeu tudo? Alguém que não comete mais nenhum erro? Você conhece alguém perfeito?

Esqueça suas paixões. Na paixão o outro é perfeito, porque guarda nele o amor que você busca – até que passe a ser outra pessoa esta que guarda, caso necessite de ser. Eu, você, ele, ela, eles todos cometerão equívocos das mais diversas espécies, cada um dentro do seu quadrado. Entenda: com o perdão da palavra, você faz cagada até quando acha que não fez, sem perceber. Mas tem um lado bom, se você tem habilidade nisso (eu considero que tenho relativa habilidade, o suficiente para que não seja acusado): as besteiras que você comete não repetirá. Portanto, ninguém tem o direito de dizer que um problema que hoje tens, foi causa de outro fracasso no passado. A menos que você mesmo chegue a esta conclusão.

A vida é um ciclo (vicioso) que algumas vezes nos leva ao mesmo lugar, ou à mesma situação. E o que você faz com ela é diretamente uma resposta ao que fez na rodada anterior. Exemplo: se você, desatento, confiou que um farol amarelo não fecharia antes que passasse, errou sua conclusão e levou uma multa, provavelmente no próximo amarelo você freia. Se você tomou uma decisão que tirou de você uma pessoa amada, e nisso a culpa foi tua, no seu próximo amor você apeifeiçoará o teu problema. E quem sabe até torna-lo virtude. É possível.

Portanto, repito: não é direito de ninguém acusa-lo de repetição de equívoco, pois o terceiro não viveu a tua vida, não fez as tuas reflexões, tampouco sentiu o que você sentiu naquele momento. Por isso que os velhos são sábios e, segundo aquele dito africano, “quando um velho morre uma biblioteca se incendeia”. Uma biblioteca de conhecimento sobre o que é a vida e como vive-la. Mas quem é velho suficiente para se prevenir de todos os equívocos? Basta, para nós, olharmos dentro do nosso próprio ser, e ter, acima de tudo, humildade para reconhecer a presença daquilo que muitas vezes nos magoa ou magoa um amado.

E no decorrer dos nossos dias aqui nesta Terra, nós vamos noite pós noite deitando na cama, refletindo, mudando, metamorfoseando as respostas para a mesma pergunta: afinal, o que é a vida?

quinta-feira, 26 de abril de 2018

A música é o combustível do imaginário


Acredito que com esse título até seria dispensável qualquer texto. Diretamente é isso: a música é o combustível do imaginário. Mas como é gostoso imaginar coisas, viver dentro de si fantasias que no mundo real muitas vezes são até impossíveis. Melhor é quando o fato é palpável. Mas se for um desejo, aproveite a música para viver hoje o que você deverá fazer amanhã.

Ouvir um som enquanto não está fazendo nada é como começar a escrever numa página em branco dentro do cérebro. Você escreve ou desenha lá tudo que aquele som lhe trás de bom. Foi isso que me incentivou a ouvir rap. E também o samba, que hoje faz parte da minha rotina. A música nacional é um combustível rico. Se a música fosse como a gasolina, a música nacional seria a gasolina aditivada da imaginação.

A reflexão musical se estabelece quando a sua cabeça está vazia para a letra da canção penetrar e moldar uma ideia, desenhar um cenário ou mesmo te levar para um lugar que jamais esteve através da criatividade. Aliás, a criatividade do compositor aguça a sua, que por vezes nem tem relação com a que ele teve quando escreveu. Que loucura é a música. O que seria do homem sem a música? Que vida triste teríamos sem a arte musical que nos enriquece de conhecimento e êxtase.

Música boa é aquela que te ativa os sentidos. A que toca o coração. É como a bebida. Bebida boa é aquela que agrada o seu paladar. A música boa é a que agrada seus ouvidos e coloca o seu cérebro para funcionar do ócio. Se você, como eu, é movido à música, utilize-a o tempo que puder. Ela é a arte mais extraordinária inventada pelo homem.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

O rodeio da vida


A verdade é que não é o que você acha. Você pensa que tem o controle, não é? Mas não tem. A verdade é que muitas vezes você não é o que pensa que é, não faz o que pensa que faz e nem passa a mensagem que acha que passa. A verdade é que há uma confusão natural na sua cabeça que você não sabe identificar. Você pode discordar, mas tem coisa que as pessoas sabem de você que nem mesmo você sabe. É aquela coisa do costume de ser quem acha que é, mas não é, saca?! A real é que é difícil se interpretar. Você toma suas decisões e nem sabe as enxerga da forma como ela são.

Esse mundinho aqui não é fácil de entender, irmão. Quando você acha que vai dar o bote nele, ele te liquida na base do soco. Mas nem sempre assim. Às vezes você pensa em dar um soco no mundinho e ele te acaricia, te dá um travesseiro, te coloca no trilho, abre teu olho e você desiste. A vida quando parece azeda, adoça. E quando você acha que está doce, ela amarga. Não é louco isso?! Mas ela é uma só e essa intensidade é positiva, por mais que muitas vezes possa não parecer. Já imaginou o tamanho de sua história quando tiver 50 anos? Já tem? Então já sabe! A nossa vida é um roteiro sim. Talvez você possa molda-lo. Mas a chance de não ser como você realmente imaginou é grande. Mas se conseguir aproximar disso, sinta-se um vencedor. Sim, a vida é um morde e assopra como esse texto.

A verdade é que a vida te engana. E você não tem saída. Agora sorria e vá!

domingo, 25 de março de 2018

Inspirações e costumes: minhas loucuras


A lente de contato irritou. Eu extrapolo, fico com ela durante o dia todo, até o momento de deitar para dormir. Mas foi no momento em que eu tive vontade de sentar aqui e escrever este texto que eu a retirei dos olhos e peguei meus óculos.

Eu ligo meu computador quando recebo uma inspiração, preparo algo para beber e me ponho a dissertar. Hoje eu resolvi escrever sobre como faço isso aqui existir. Eu tenho devaneios de assuntos diversos. Viajo em minhas ideias, divago por oposições ao meu próprio pensamento e chego a uma conclusão que nem sempre é a mesma do começo da reflexão. E eu gosto de quando é assim.

Eu tomei um gole do cappuccino que preparei para sentar aqui agora e quase derrubei. Mas hoje eu não ficaria enfurecido. É domingo a noite, momento de ócio, solidão e melancolia. Mas eu estou apenas com o ócio e mais neutro em emoções do que nunca. Diria que neste momento eu sou uma pessoa fria, quase gelada. Esse texto é apenas a necessidade de colocar alguma coisa na página de word em branco que foi transferida para essa página com fundo marrom na internet. Eu gosto desse ambiente marrom, você gosta também?

Eu tiro inspiração do cérebro vazio, da bebida que eu tomo, da música que eu ouço, dos livros que leio e até de algo que uma pessoa disse pra mim em alguma rede social. Eu adoro quando despertam em mim uma curiosidade. Eu só não gosto quando minha cachorra late ou não deixa eu ver TV porque fica entrando na minha frente. Está passando um show na TV neste momento e eu coloquei no mudo. Está com uma cara de show muito ruim. Eu não conheço a moça que canta, mas por mais que seja ruim ela expôs o seu “eu” nas canções e isso é bom. Eu faço isso aqui, mesmo sem saber se quem lê gosta.

Eu não gosto de quando pessoas com conversas agradáveis ficam dias sem falar comigo. Mas eu não digo isso a elas, tenho medo de ser inconveniente. Por outro lado eu fico feliz quando alguém lembra de algo bom que eu fiz ou estou fazendo. Eu não sou daqueles que gostam de ficar expondo tudo que faz, mas recentemente eu descobri o tal do “status” do whatsapp e achei engraçado. Mas não vou ficar muito tempo, como fiz com o snapchat. Tem coisa que é muito banal e eu não tenho paciência de permanecer.

Eu não fumo. E não sei como. Eu tinha todos os motivos para fumar, mas não gosto. Mas se você for fumar alguma coisa perto de mim, por favor, que seja maconha. Eu odeio cigarros. Eu nunca coloquei nada de fumo na boca. Meus vícios são outros. Eu sou viciado em café, eu adoro tomar cerveja, tomo a qualquer momento em casa, sozinho. Dá vontade, eu abro uma lata e tomo. Uma só. Eu sou viciado em erva mate enquanto estou tomando meu tereré. Eu tenho a impressão de que eu não vou parar de beber nunca. E quando eu tenho de parar fico triste. Eu sou viciado em ler, embora eu não esteja lendo nada a longo prazo agora e há algum tempo eu não estudo nada.

Eu sou viciado em escrever. Por isso eu tenho essa página. Aqui eu gosto de expor coisas para que as pessoas reflitam e também escrevo alguns contos, como talvez você já tenha lido. Eu já perdi várias ideias por não ter anotado achando que não esqueceria. Comprei um bloco de notas físico porque não me dou tão bem com notas do celular. Fiquei andando com ele por uns dias, anotei umas ideias, coloquei-as em prática e depois abandonei o bloco. Agora eu tenho ideias, mudo de música e as esqueço. Eu tenho pronto um roteiro de livro, mas tenho medo de escrever. É sério. Não é pânico, é medo. Então, a qualquer momento eu vou começar. Sobre isso eu posso falar em outro texto.

Eu vim aqui neste domingo a noite de ócio escrever apenas algumas coisas sobre mim. Não deve ser interessante pra você, mas serviu para eu pôr pra fora um pouco dos meus costumes, sobre minhas inspirações. A vida me inspira...e eu escrevo. Meu cappuccino acabou, então eu vou parar por aqui.

quinta-feira, 15 de março de 2018

O poder da memória


Dentre tantas outras referências, vivemos a época do registro. Todo e qualquer momento considerado especial na vida de um indivíduo, está aberta a câmera do smartphone e um clique é feito frente a sorrisos e poses. E se a imagem não ficar boa, sob avaliação de alguém, ela é refeita. O registro é, na maioria das vezes, exposto nas redes sociais para que as outras pessoas vejam. Em shows as pessoas filmam, fotografam, gravam áudio. Em pedidos de casamento um terceiro filma. Em encontro com amigos num bar é feito uma álbum cheio de fotografias. Mas o melhor e mais importante registro é o da memória. A minha memória tem mais espaço que o meu HD de 500GB ou meu cartão de memória de 16GB do smartphone. A sua também tem. O espaço da memória humana é maior do que qualquer objeto ou plataforma mensurável.

Portanto, a melhor forma de registrar um momento é não esquecendo que um dia ele ocorreu. Se um dia você tiver um momento de alegria comigo, nunca se esqueça. Eu também não esquecerei e o registro estará feito. O mais valioso deles!

quarta-feira, 14 de março de 2018

As leis da vida e a vontade do homem


Talvez a humanidade seja muito recente para que a ciência da psicologia tenha descoberto tudo que nos envolve. Acredito que ainda há muito a descobrir sobre o intelecto humano e suas capacidades, até porque o mundo está em constante evolução e o ser humano nela está envolvido.
Mas andei pensando sobre duas vertentes que se esbarram no meio desse caminho que o homem trilha. Aqui nesta terra há duas coisas distintas entre si e que geram um desagrado e, talvez, sejam elas as responsáveis pela maior dificuldade do ser humano de se encontrar individualmente: as leias da vida e as suas vontades.

A vida humana tem suas leis. Elas são compostas por coisas que a gente não domina. A filosofia e psicologia tentam explicar, até com relativo sucesso, como algumas delas ocorrem e qual a forma de conviver com elas harmoniosamente. Aquilo que a gente não escolhe que aconteça – a morte é a mais básica delas – e que temos de achar ferramentas para transpô-las. A capacidade do ser humano de amar é uma delas. Amar, apaixonar-se não é uma escolha. É uma lei da vida. É a consequência de múltiplos atos praticados pelo indivíduo que, muitas vezes, ele nem percebe que os praticou. Em ocasiões ele não quer e/ou a segunda pessoa envolvida não deseja e o cidadão maravilhado pelo sentimento de borboletas no estômago tem de quebrar a barreira que ele não pediu para que aparecesse.

Imagem retirada do site www.medium.com

Do outro lado existe a vontade do ser humano. Essa, perante a primeira observação feita acima, é a mais complicada. Tudo porque as vontades do ser humano quase nunca sobrepõem as leis da vida. Nossas vontades são uma marolinha perante aquilo que não dominamos e que nos acontece sem escolhas. Talvez o querer seja a virtude menos interessante da vida humana e certamente é a origem de todo o sofrimento. O ser humano nem sempre “tanto faz”. Ele quer. Desejo é eros, dizia Platão. Eros é a vontade daquilo que lhe falta. E possivelmente o que lhe falta continuará faltando em respeito às leis da vida.

O ser humano tem livre arbítrio até a página dois. Ele foi abastecido por sentimentos incontroláveis que não é de sua escolha e elas não farão frente a esses sentimentos. Agora, pare para pensar nisso que lhe contei após uma breve reflexão. Não é o desejo a origem de todo o sofrimento? Por outro lado, talvez você imagine que não, que a origem de todo sofrimento seja as leis da vida. Mas nós nos adaptamos conforme as leis ou as leis que se modificam pelas nossas vontades? O ser humano evolui. E muitas vezes mudou geneticamente para se adequar às leis da vida e ultrapassar com tranquilidade suas dificuldades. Será que ainda passaremos por uma metamorfose psicológica para aguentar o tranco que a vida nos impõe?

Esse é apenas um pedaço dos meus devaneios para a reflexão do leitor. Pensar as vezes faz bem, mesmo que pareça uma bobagem. Uma coisa eu alerto, caso ainda não pratique: interprete bem as leis da vida para que suas vontades e desejos não deem de cara com aquilo que não podem competir, porque a dor da batida é latejante e covarde.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Reflexão sobre a morte


A morte é escrota.

Me desculpe pelo termo chulo usado na frase anterior, mas foi o adjetivo menos agressivo que achei para traduzir algo em que tenho asco quando penso, embora pense com frequência.

Ontem me encontrei com dois amigos para sentar numa mesa de bar, pedir cerveja e conversar com qualquer jogo ao fundo na TV. Uma conversa que foi uma mistura de desabafo, com papo em dia e lembranças. E numa dessas lembranças veio à tona a saudade de um amigo. Um indivíduo querido no nosso grupo de estudantes, quando começamos a faculdade de jornalismo. Tão querido que deixou o curso no meio e não deixou seus parceiros para trás.

Nós o perdemos há quase três anos para um acidente automobilístico. É aquela morte que não se espera e nem se entende por dias. Há quem tenha uma visão menos pessimista da morte. Mas a maioria das pessoas enxergam esse estorvo da vida como um fato inaceitável. Porque eu poderia ter naquela mesa mais um amigo e simplesmente não tenho. Não terei mais. A minha vida vai chegar ao fim e eu não mais o verei. E esse pensamento machuca, é entristecedor. E achou aquela mesa numa de nossas lembranças em que nosso amigo esteve presente através de lembranças, sempre positivas.

Num determinado ponto da conversa um dos meus parceiros sentados à mesa disse: “eu fui na pior parte, a do sepultamento. Fui eu quem viu a primeira pá de terra sobre a urna e é inacreditável”. É isso que dói mais. É desesperador ver a terra cobrindo um corpo que há pouco tempo te abraçava, te sorria, vivia.

Ele não sente mais nada. E nós? Nós sofremos, choramos, sentimos falta, perdemos um pouco de nós mesmos em cada pessoa que a gente tem carinho que se vai. A terra não cobre só uma urna, ela cobre uma história que antes era viva. Cobre sonhos, esperança, desejos. A terra cobre um pedaço de nós, só não passa pela garganta, onde a partir daquele momento existe um nó.

A morte é escrota.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Desapegue da virada, a vida é contínua

Eu mudei em 2017. Mas não mudei porque foi em 2017 ou porque meu objetivo era mudar em 2017. Não! Eu mudei naturalmente em 2017. E vou explicar o quê e porquê eu mudei.

No final de 2016 eu fiz igual a você: tracei todos os meus objetivos para o ano que entrava. Prometi que voltaria para a academia e cumpri. Prometi que voltaria a jogar bola e cumpri parcialmente, comecei e parei. Mas projetei que em março deste ano eu começaria a escrever meu livro. Parei no roteiro. Não escrevi uma linha sequer. Apenas abri este blog para a publicação dos meus contos e crônicas, que até então só eu conhecia, ficava guardado dentro do meu eu. Mas há um bom tempo eu não escrevia nada aqui. Sabe como é né?! Muito trabalho e as prioridades vão nos consumindo.

Agora, vai chegando ao final o ano de 2017. E o que eu aprendi com ele? Aprendi que não devo me apegar à mudança de ano. O que é a mudança de ano senão um gatilho que não funciona? As promessas para o ano que se inicia não passam de mentiras que massageiam nosso ego a fim de nos dar um conforto que na verdade não existe, é forçado e invisível.
Comece hoje, não deixe para janeiro – muito menos para depois do carnaval. Comece hoje, não deixe pra segunda-feira.

Porque esperar passar as festas para começar a sua dieta? Comece hoje! Porque esperar segunda-feira para começar a academia? Vá hoje, mesmo sendo quarta!!! Porque programar para dia primeiro de um determinado mês, se hoje, meio do mês, é um dia tão normal quanto o primeiro do mês seguinte?
Deixar para depois é bobagem. A virada do ano é simbólica para nós. Ela só serve de referência astronômica. Nada mais é do que uma volta da Terra ao sol. O dia primeiro de janeiro é exatamente igual a qualquer dia do mês de maio. A vida é contínua. A vida é como uma régua gigante, em que você não precisa chegar ao centímetro exato para apertar o gatilho do seu objetivo. Para realizar sonhos não precisa aguardar terminar o ano. Comece agora, mesmo que seja dezembro. A semana que vem será igual a esta e você terá perdido 7 dias. Se não começar logo, quando perceber a vida já passou, você já prometeu sem cumprir dezenas e dezenas de vezes durante aquela semana entre Natal e Réveillon.

Portanto, eu mudei. Eu não tenho o objetivo de fazer coisa alguma em 2018. Eu farei todas as coisas, independente se é 2018 ou 2017. Farei agora, se possível. Dane-se o ano ou momento do sucesso. O importante é que ele venha.


Feliz vida pra você!

terça-feira, 30 de maio de 2017

A passagem

De repente estava de pé.
Roupas largas, blusa de manga longa e um calçado confortável. Tudo branco. Olhou-se de cima a baixo, tentando entender onde estava e quando havia vestido aqueles trajes. Não havia qualquer tubo conectado às suas veias e nem máscara de oxigênio. Não sentia dor alguma. A sensação era de puro e completo bem-estar e energia. Aquilo despertou nele medo.
Olhou à sua volta e viu paredes rigorosamente brancas e um piso colocado no solo de forma absolutamente perfeita. O local era um corredor enorme, que aparentemente não tinha fim. A vontade de explorar o local sobrepôs qualquer tipo de pensamento, do tipo “cadê todo mundo?”. O medo se dissipou e ele se pôs a caminhar em linha reta.
Passou por duas portas, uma de cada lado do corredor largo, frente a frente. Estavam fechadas e ele seguiu. Caminhou por aproximadamente 20 metros quando começou a ouvir passos e uma voz feminina. Ele percebeu que alguns passos à frente havia um corredor perpendicular ao que estava, virando à esquerda. Quando chegou próximo dele, avistou várias pessoas vindo na direção contrária, vestindo as mesmas roupas. Elas eram guiadas por uma mulher de pele negra e cabelos cacheados. Ela também vestia branco, parou e sorriu para ele. Ainda se sentia grogue e só fez observar a linda mulher.
- Olá. Junte-se a nós. Você deve ser o Kléber. Era você que esperávamos. – Ele hesitou por um instante. Ela insistiu – não tenhas medo. Tem outras pessoas esperando por você.


Ela pôs-se a andar, com aquela multidão a seguindo. O sorriso no rosto daquelas pessoas, de diferentes etnias e trejeitos deu coragem a ele, que se juntou ao grupo. Passaram por uma porta e entraram numa sala quadrada, tão limpa e iluminada quanto o corredor que acabara de atravessar. Havia poltronas espalhadas por toda a sala e, no canto oposto à porta um homem estava de pé, esperando pela entrada de todos.
As pessoas se acomodaram todas caladas. O homem pegou uma folha e começou a ditar nomes. Nesse instante, ele entrou num devaneio e começou a relembrar o que havia se passado antes de se perceber naquele lugar. Um bip, barulho de passos e vozes de pessoas ao seu redor. De repente o negro invadiu sua mente e ele voltou ao ambiente esbranquiçado daquele lugar estranho. Mas não suficientemente estranho para ser desagradável. Pelo contrário. O ar daquele local o deixava anestesiado de bem-estar. A voz do homem no canto da sala soou mais alto e ele voltou à sua nova realidade.
- Kléber Farias. – Ele não respondeu, apenas olhou atentamente o homem, que sorriu, olhou em direção à porta e disse: - o Kléber chegou.
A roupa branca de uma segunda figura iluminou ainda mais a entrada da sala e a felicidade contagiou seu peito de forma jamais sentida.
- Vô?!
- Oi, molequinho. Venha, você está na minha lista. Vou te levar pra casa. Estava morrendo de saudades de você.


(Essa crônica é uma homenagem a Kléber Farias, irmão de uma grande amiga, Verônica Farias, que fez sua passagem após lutar bravamente contra uma doença devastadora. "Somente o justo desfruta de paz de espírito" [Epicuro])

sexta-feira, 10 de março de 2017

Alice

Existe um provérbio africano que diz: “quando morre um velho é uma biblioteca que se incendeia”.
Mais do que uma biblioteca, como um HD de grandes histórias, cultura e conhecimento de um idoso, Alice era um depósito de calma, carinho e compaixão. Fez sua passagem dormindo como um passarinho e encontrou no plano espiritual aquele que não via há quase 14 anos. Quando ele soube de sua futura chegada aparou a barba, vestiu a velha camisa marrom de botões, uma bermuda confortável, a bota preta e se perfumou. Daquela forma, a tradicional, ele esperaria sua véia, que era “tão boa, mas tão boa, que chegava num prestá”. Assim como eu e você, Pedro não queria esperar por tanto tempo, mas não teve escolha. Alice tinha de terminar o seu legado na terra dos humanos e esperar a geração posterior para deixar seus ensinamentos. Mas ele, agora, teve sua recompensa.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Relato de uma angústia

O medo

Medo é um item inevitável da nossa vida. Ele é diferente do pânico. Medo é comum e digno, porque se enfrenta com coragem. Um dos maiores medos do ser humano, sem dúvida alguma, é a perda de quem ama para a morte. Provavelmente você, leitor, já deve ter sentido esse medo algumas vezes e, quem sabe, já não chorou por causa dele?!
Quando você vê o perigo desta possibilidade na sua frente é que o medo vem, te consome e, se der tempo, te faz refletir e até mudar de atitude. O que é bom. Talvez até então você não enxergasse direito o que deveria fazer ou como ser com alguém antes que aconteça uma tragédia. Se não der tempo de consertar o erro vem outro sentimento: o arrependimento. Esse é amargo.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Carteado (Parte final)

Aquela era uma carta diferente das demais. Nas costas, onde haveria o arabesco azul, havia um papel com duas vezes a largura da carta, mas estava dobrado ao meio, de forma que ficasse exatamente do tamanho do Ás. Sem demora, ansioso e com pressa William abriu o papel. Nele havia um texto escrito à mão, em letra semelhante às dicas anteriores.
Parabéns por ter chegado até aqui. Se aqui está é porque merece a chave da libertação. Vá imediatamente para baixo do viaduto do chá, onde começa a calçada grande do Anhangabaú. Ali tem um portão que dá acesso a um beco e está aberto para você”. William agradeceu o atendente da biblioteca, que deu de ombros e foi em direção às prateleiras para arquivar os dois exemplares solicitados pelo visitante. Quando Krahmer colocou os pés na rua a chuva já começava, com gotas espessas e caindo lentamente. Era um aviso de uma grande tempestade que chegava. As pessoas que andavam por ali estavam apressadas. Algumas com guarda-chuvas abertos e outras se protegendo com objetos, como pastas e bolsas, todas pelo canto da calçada. William não se preocupava em se molhar, já estava úmido de suor e com a camisa amassada, não havia razão para se preocupar com tão pouco.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Carteado (Parte 4)

O padre estava perplexo. A freira continuou como uma estátua, horrorizada com a descoberta. William Krahmer permaneceu mais um instante pensativo, imaginando quando aquilo acabaria. Ele fora ali atrás de uma chave que pudesse liquidar essa brincadeira homicida. E nada encontrou além de um rei de paus, que, para ele, não significava nada naquele momento.
— Como isso veio parar na minha bíblia? —Indagou o padre, ainda em choque.
— O senhor deixou esta sala vazia em algum instante hoje? — William questionava sem muito interesse.
— Apenas pela manhã. Eu cheguei aqui após o meio dia.
— De manhã estava aberta e assim ficou por alguns minutos quando eu conversava com uma fiel no salão da igreja — acrescentou a freira.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Carteado (Parte 3)

Sem fazer barulho, William pegou a dama de copas e observou. Desta vez havia algo escrito na borda da carta ao lado do arabesco azul, às costas da dama, que observava o rapaz com serenidade, enquanto o rosto de William transparecia a dúvida e incredulidade. “Subway”, em pequena letra manuscrita com esferográfica de ponta muito fina na cor preta.
— Este psicopata está testando minha inteligência. — murmurou.
Precisava partir dali antes que fosse visto e a polícia fosse chamada. Se tivesse que dar explicações às autoridades desperdiçaria muito tempo e poderia colocar tudo a perder. Abriu lentamente a porta do depósito e ouviu passos vindos da direção da escada. Com um frio na espinha ele apoiou as costas contra a porta e esperou. Ouviu os passos atrás de si, passando pela porta onde estava e entrando na próxima, do outro lado do corredor. Abriu novamente e andou até a escada. Encostado na parede observou escada abaixo. Ninguém subia e ele partiu rápido, com passos silenciosos.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Não existe amor à primeira vista

É isso. Sem rodeios. Não existe amor à primeira vista.
Certamente uma festa a convite de amigos ou mesmo uma saidinha de balada ou barzinho são bons lugares para se gostar de alguém. É natural que um papo bem fluído, aliado a características que você enxerga como qualidades presentes neste alguém vai te ajudar a brilhar os olhos por ele ou ela. A beleza também pode te fascinar, mesmo que as ideias do outro não bata com as suas.
Desisto de pensar que você vai convidar para sair outro dia alguém que seja um chato de galocha, que se apresente como um porre em dez minutos de social. Mas alguém que você não teve oportunidade de falar em particular pode te fazer dar uma segunda chance, um segundo encontro. Acredito que já tenha acontecido com você, leitor, de sentir este súbito desejo por alguém que tenha se esquecido de pedir o telefone e não tenha mais visto. A sensação de perder uma grande chance é amarga.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Carteado (Parte 2)

Na face do valete de espadas tinha algo escrito na beirada branca. “Casa grande”. William ficou confuso, não entendeu nada. Foi até a cozinha pegou a maior faca que tinha na gaveta do gabinete, enfiou numa capa protetora e escondeu entre a calça e a camisa. Não sabia o que encontraria na busca pelo fim desta loucura. Mesmo à hora do almoço, não sentia fome alguma, o estômago se embrulhava diante da situação inimaginável a qual estava passando. “Casa grande”.
Ele pensou por alguns segundos. Ao fim da rua de sua casa tinha uma casa, o esboço de uma mansão, que havia sido abandonada por seu proprietário há dois anos, parando sua construção. Correu para lá. Teve de pular o portão, que estava trancado à corrente. Observou para ver se ninguém o observava e entrou. Lá dentro, apenas poeira tomava conta do piso de concreto e alguns materiais de construção nos cantos das paredes inacabadas. Procurou por toda a parte. Subiu para o andar de cima e nada encontrou. William teve vontade de chorar, pensava em Sara pregada à parede e na mãe, sedada e completamente presa à cama da namorada. Pensou estar sonhando, lembrou-se de sua infância, dos passeios com a mãe, da adolescência e quando conheceu Sara, no show dos Stones no Rio de Janeiro.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O buquê

Eu pensava com meus botões o que eu poderia enviar a ela no nosso dia, durante a arrumação de praxe de uma noiva. A semana foi agitada e eu só pude pensar nisso no último dia, no dia derradeiro. Mas seria um desafio achar uma solução para aquele que eu considerava ato praticamente obrigatório.
Estive com ela pela manhã. Depois, a noiva partiu para o salão e eu corri na busca por um carro de aluguel. Eu também tinha horário marcado no salão para dar jeito no cabelo enrolado, mas o tempo era curto e seria uma prova de resistência à minha paciência. A rodovia Raposo Tavares estava recheada de estresse, que era representado por centenas de carros que andavam na velocidade de uma tartaruga.