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domingo, 25 de março de 2018

Inspirações e costumes: minhas loucuras


A lente de contato irritou. Eu extrapolo, fico com ela durante o dia todo, até o momento de deitar para dormir. Mas foi no momento em que eu tive vontade de sentar aqui e escrever este texto que eu a retirei dos olhos e peguei meus óculos.

Eu ligo meu computador quando recebo uma inspiração, preparo algo para beber e me ponho a dissertar. Hoje eu resolvi escrever sobre como faço isso aqui existir. Eu tenho devaneios de assuntos diversos. Viajo em minhas ideias, divago por oposições ao meu próprio pensamento e chego a uma conclusão que nem sempre é a mesma do começo da reflexão. E eu gosto de quando é assim.

Eu tomei um gole do cappuccino que preparei para sentar aqui agora e quase derrubei. Mas hoje eu não ficaria enfurecido. É domingo a noite, momento de ócio, solidão e melancolia. Mas eu estou apenas com o ócio e mais neutro em emoções do que nunca. Diria que neste momento eu sou uma pessoa fria, quase gelada. Esse texto é apenas a necessidade de colocar alguma coisa na página de word em branco que foi transferida para essa página com fundo marrom na internet. Eu gosto desse ambiente marrom, você gosta também?

Eu tiro inspiração do cérebro vazio, da bebida que eu tomo, da música que eu ouço, dos livros que leio e até de algo que uma pessoa disse pra mim em alguma rede social. Eu adoro quando despertam em mim uma curiosidade. Eu só não gosto quando minha cachorra late ou não deixa eu ver TV porque fica entrando na minha frente. Está passando um show na TV neste momento e eu coloquei no mudo. Está com uma cara de show muito ruim. Eu não conheço a moça que canta, mas por mais que seja ruim ela expôs o seu “eu” nas canções e isso é bom. Eu faço isso aqui, mesmo sem saber se quem lê gosta.

Eu não gosto de quando pessoas com conversas agradáveis ficam dias sem falar comigo. Mas eu não digo isso a elas, tenho medo de ser inconveniente. Por outro lado eu fico feliz quando alguém lembra de algo bom que eu fiz ou estou fazendo. Eu não sou daqueles que gostam de ficar expondo tudo que faz, mas recentemente eu descobri o tal do “status” do whatsapp e achei engraçado. Mas não vou ficar muito tempo, como fiz com o snapchat. Tem coisa que é muito banal e eu não tenho paciência de permanecer.

Eu não fumo. E não sei como. Eu tinha todos os motivos para fumar, mas não gosto. Mas se você for fumar alguma coisa perto de mim, por favor, que seja maconha. Eu odeio cigarros. Eu nunca coloquei nada de fumo na boca. Meus vícios são outros. Eu sou viciado em café, eu adoro tomar cerveja, tomo a qualquer momento em casa, sozinho. Dá vontade, eu abro uma lata e tomo. Uma só. Eu sou viciado em erva mate enquanto estou tomando meu tereré. Eu tenho a impressão de que eu não vou parar de beber nunca. E quando eu tenho de parar fico triste. Eu sou viciado em ler, embora eu não esteja lendo nada a longo prazo agora e há algum tempo eu não estudo nada.

Eu sou viciado em escrever. Por isso eu tenho essa página. Aqui eu gosto de expor coisas para que as pessoas reflitam e também escrevo alguns contos, como talvez você já tenha lido. Eu já perdi várias ideias por não ter anotado achando que não esqueceria. Comprei um bloco de notas físico porque não me dou tão bem com notas do celular. Fiquei andando com ele por uns dias, anotei umas ideias, coloquei-as em prática e depois abandonei o bloco. Agora eu tenho ideias, mudo de música e as esqueço. Eu tenho pronto um roteiro de livro, mas tenho medo de escrever. É sério. Não é pânico, é medo. Então, a qualquer momento eu vou começar. Sobre isso eu posso falar em outro texto.

Eu vim aqui neste domingo a noite de ócio escrever apenas algumas coisas sobre mim. Não deve ser interessante pra você, mas serviu para eu pôr pra fora um pouco dos meus costumes, sobre minhas inspirações. A vida me inspira...e eu escrevo. Meu cappuccino acabou, então eu vou parar por aqui.

terça-feira, 30 de maio de 2017

A passagem

De repente estava de pé.
Roupas largas, blusa de manga longa e um calçado confortável. Tudo branco. Olhou-se de cima a baixo, tentando entender onde estava e quando havia vestido aqueles trajes. Não havia qualquer tubo conectado às suas veias e nem máscara de oxigênio. Não sentia dor alguma. A sensação era de puro e completo bem-estar e energia. Aquilo despertou nele medo.
Olhou à sua volta e viu paredes rigorosamente brancas e um piso colocado no solo de forma absolutamente perfeita. O local era um corredor enorme, que aparentemente não tinha fim. A vontade de explorar o local sobrepôs qualquer tipo de pensamento, do tipo “cadê todo mundo?”. O medo se dissipou e ele se pôs a caminhar em linha reta.
Passou por duas portas, uma de cada lado do corredor largo, frente a frente. Estavam fechadas e ele seguiu. Caminhou por aproximadamente 20 metros quando começou a ouvir passos e uma voz feminina. Ele percebeu que alguns passos à frente havia um corredor perpendicular ao que estava, virando à esquerda. Quando chegou próximo dele, avistou várias pessoas vindo na direção contrária, vestindo as mesmas roupas. Elas eram guiadas por uma mulher de pele negra e cabelos cacheados. Ela também vestia branco, parou e sorriu para ele. Ainda se sentia grogue e só fez observar a linda mulher.
- Olá. Junte-se a nós. Você deve ser o Kléber. Era você que esperávamos. – Ele hesitou por um instante. Ela insistiu – não tenhas medo. Tem outras pessoas esperando por você.


Ela pôs-se a andar, com aquela multidão a seguindo. O sorriso no rosto daquelas pessoas, de diferentes etnias e trejeitos deu coragem a ele, que se juntou ao grupo. Passaram por uma porta e entraram numa sala quadrada, tão limpa e iluminada quanto o corredor que acabara de atravessar. Havia poltronas espalhadas por toda a sala e, no canto oposto à porta um homem estava de pé, esperando pela entrada de todos.
As pessoas se acomodaram todas caladas. O homem pegou uma folha e começou a ditar nomes. Nesse instante, ele entrou num devaneio e começou a relembrar o que havia se passado antes de se perceber naquele lugar. Um bip, barulho de passos e vozes de pessoas ao seu redor. De repente o negro invadiu sua mente e ele voltou ao ambiente esbranquiçado daquele lugar estranho. Mas não suficientemente estranho para ser desagradável. Pelo contrário. O ar daquele local o deixava anestesiado de bem-estar. A voz do homem no canto da sala soou mais alto e ele voltou à sua nova realidade.
- Kléber Farias. – Ele não respondeu, apenas olhou atentamente o homem, que sorriu, olhou em direção à porta e disse: - o Kléber chegou.
A roupa branca de uma segunda figura iluminou ainda mais a entrada da sala e a felicidade contagiou seu peito de forma jamais sentida.
- Vô?!
- Oi, molequinho. Venha, você está na minha lista. Vou te levar pra casa. Estava morrendo de saudades de você.


(Essa crônica é uma homenagem a Kléber Farias, irmão de uma grande amiga, Verônica Farias, que fez sua passagem após lutar bravamente contra uma doença devastadora. "Somente o justo desfruta de paz de espírito" [Epicuro])