quarta-feira, 14 de agosto de 2024

O corpo de Cristo

 

(baseada numa história real)

Há dois tipos de pessoas no mundo: as que vivem pelos princípios criados por si, dentro daquilo que acham ético e saudável. E as que vivem pela fé, que te inspira, te ensina e te mostra os caminhos a serem seguidos segundo sua crença.

Em um pequeno pedaço da história, como num parágrafo pequeno de uma bíblia de 950 páginas, existe a história de um mulher que por tantos anos buscou a sua libertação. Uma batalha dura e triunfante em busca do caminho que Jesus Cristo a mandou seguir.

Maria levantou-se, mais cedo do que gostaria naquela manhã. Uma luz pairava na porta do quarto, vinda do cômodo ao lado. Algo que a inquietou após uma noite conturbada de sono. O marido já havia saído para um longo dia de trabalho. Levantou-se, caminhando lentamente até a sala, de onde vinha uma luz branca forte e um cheiro inconfundível de mirra.

Ao chegar em frente à luz, a mulher entrou numa espécie de transe, uma viagem no tempo, mergulhando fortemente no mundo das ideias e da fé. Maria sempre foi religiosa. Católica, nunca deixou de ir à missa aos domingos. Mas, naquela ocasião, se sentiu chamada a libertar-se. E dentro do transe que a atingia naquele local, ela lembrou-se de todo o seu passado, que carregava dor, tristeza e pecado.

Ela estava no seu segundo casamento. Mas a cabeça não a enganava. O primeiro não aconteceu de forma espontânea e verdadeira. Aquilo a afligia. Páginas e páginas de insucesso espiritual e físico. Ela atravessou diversos episódios de sofrimento enquanto no primeiro matrimônio. Mas ele havia acontecido ali, no altar, com a bênção do Padre. De forma que o casamento atual não tinha passado pelo mesmo ritual por impedimento pelas normas da igreja. E, naquele momento, com todas as suas memórias vivas e lancinantes, ela percebeu o chamado de Deus. Mirra. Morte e ressurreição. Ali, a luz divina a convocava para uma ressurreição e conciliação.

Desse dia em diante, Maria passou a se entregar cada vez mais a Deus e à igreja. A fé fazia parte de cada passo de seu dia, de cada pensamento e oração. Eram horas diárias dedicadas a servir aos ensinamentos do criador. Enquanto isso, a busca incessante pelo perdão eterno para o começo de uma nova história em Cristo.

Muitos anos se passaram até o dia 8 de agosto de 2024. No caminho percorrido, um grande trecho da pequena história de Maria foi marcado por penitências, renúncias, resiliência e muita fé. O homem que caminhou ao seu lado foi o seu alicerce. Seu marido se tornou o pilar de todo o peso que sobre as costas dela se apoiava.

Anatalino. Determinado, paciente e amoroso. Tem o nome que lhe lembra todos os dias a honra da data de seu nascimento. E ao mesmo profeta se curvou diante do chamado que Maria recebeu.

Maria. Se há milhares de anos uma delas recebeu Gabriel, o anjo, para lhe comunicar do recebimento da maior benção para quem ela era merecedora. Hoje, tanto tempo depois, uma Maria recebeu uma convocação para alcançar a luz que tanto almejava.


E no dia final, lá estava ela, Maria, e ele, Anatalino. Numa noite de céu aberto, para que o criador pudesse ser testemunha de uma glória tão magnífica e potente. Ele era o convidado principal para o banquete de Jesus servido à Maria. A igreja estava repleta de pessoas que, de perto, acompanharam a saga da fé daquela mulher que por tanto tempo lutou, chorou e abdicou todas as missas do momento mais sagrado. Pela sua conduta, mesmo que involuntária, e pelo pecado que carregou por tantos anos.

À frente do Padre, num altar reluzente preparado por Deus, ela chorou. As lágrimas da libertação. Para, de uma vez por todas, abandonar a dor e a culpa. Uma energia poderosa e avassaladora entrou pela porta da casa de Deus. Naquele momento, ela recebia mais uma vez a poderosa bênção do Espírito Santo, que buscou por toda a sua vida incansavelmente. O corpo de Cristo.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

A bênção no paraíso - Parte I


                O tempo se abriu. O azul do céu limpo, com nuvens de espessura ignorável ao longe, brilhava tanto que deixava o mar com um aspecto de quilômetros incontáveis de cristal andara. A areia branca da praia, em contraste com as pedras que as ondas encontravam, fazia com que o cenário ficasse milhões de vezes mais rico. Não para fotos, mas para admirar a olho nu e se perguntar eternamente como seria possível. As rochas, algumas lisas e outras em formato repuxado, como se a água e o vento tivessem quisto que elas fossem mais para longe, com rasuras de um vertical preciso, brilhavam com o nascer do sol por trás do monte. Deus jogou vida naquele dia. Com uma pitada de sal e ansiedade.

No dia anterior

                Era 19 de janeiro. O tempo estava enuviado pela manhã, com o sol por trás, por vezes presente. Saímos com o carro do estacionamento do motel, que foi suficiente para dormirmos quatro horas depois de um dia cheio e uma viagem cansativa, e pegamos a estrada. O caminho era longo. Extensos 300 km de Fortaleza até Jijoca, onde o maior trecho do trajeto era em pista de mão dupla. Quando o visor da trip estava apontando mais da metade do caminho, uma tempestade resolveu lavar tudo que tinha sobre a Terra. Buracos. Reduzimos a velocidade.

                Era a véspera do grande dia e a chuva não cessava. Conforme chegávamos perto do destino, o céu ficava mais cinza. Nós tínhamos todas as ferramentas para cair em desânimo e pensar que deu tudo errado. Mas a fé que anima nossa alma era bem mais forte que aquela água que não caía com tanta violência naquele local há muito tempo. De Jijoca, mais quarenta minutos nas dunas alagadas do parque nacional Chico Mendes até a vila de Jericoacoara. Valetas cheias de água que mais pareciam novas lagoas dando um alô ao paraíso. O tempo e água eram turvos. Um marrom claro misturado ao cinza. Lameado. Areia úmida.

                Nos instalamos. Parou de chover. Saímos para almoçar. Chuva novamente. Nos concentramos. Entramos numa meditação de olhos abertos e mente funcionando tão profunda que a energia dos bons ares se dissipou por toda a região. À noite, já com estrelas dando indícios de glória, à porta da capela de Nossa Senhora de Fátima, eu escrevi meus votos, enquanto ela provava a maquiagem no quarto da pousada. Entrei, me ajoelhei. Próximo ao altar, uma dúzia de jovens ouvia do catequista orientações sobre os costumes católicos. Fechei meus olhos e rezei.

“Senhor, ilumine a minha segunda-feira com um sol lindo e um dia maravilhoso. Leva para longe sua tempestade, fazendo-a cair numa outra oportunidade. E, principalmente, se coloque em nossos corações para o dia de amanhã. Coloco em suas mãos as nossas vidas. Amém”.

O dia

                Era pouco mais de 5h quando o celular despertou no quarto da pousada. As janelas e cortinas fechadas impossibilitava de ver como estava o dia lá fora. Nos preparamos e saímos. Como num sopro divino, o sol nascia por trás do monte, livre de qualquer obstáculo. Consegui ver de longe o sorriso dele para mim. Saímos para um ensaio fotográfico em um dos lugares mais incríveis que já fui. Foram mais de 2km caminhando pelo monte, chamado pelos locais de serrote, até a tão buscada pedra furada. Mas naquele dia ela estava diferente. Bonita, brilhante, exposta e nossa.

                Naquele momento, como uma tela pintada com detalhes minuciosos, eu estava dentro de um sonho. Enfincado dentro de um pedido que fiz à Deus na véspera. Ele me deu de presente o pedido que fiz com tanto afinco e fé. Dali em diante qualquer imagem que saísse daquele ensaio seria uma obra de arte de ótica, sentimento e felicidade.



segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

O que é a vida?


A vida ensina em todas as situações vividas, sejam elas boas ou ruins. Mas, aqui, hoje, eu quero falar das ruins. Porque são essas que vão fazer você, provavelmente, cometer menos erros lá na frente e desfrutar de vida melhor. O saudoso Abujamra – agora substituído em seu programa, Provocações, por Marcelo Tas – perguntava a seus convidados e agora é copiado: o que é a vida?

Como eu jamais serei entrevistado pelo mestre Abujamra, tampouco devo ser pelo seu sucessor, usarei o meu espaço, que é este, para dizer o que é a vida:

- A vida é uma sucessão de equívocos, onde a falta de experiência ou a insistência no que não deu certo são as ferramentas utilizadas para o aborrecimento;

O que é a vida?

- A vida é um conjunto de ações temerárias, recheadas com pitacos de ações assertivas, que mesmo sendo te cobram um preço na frente;

O que é a vida?

- A vida é a única coisa que nós temos, sem opção de escolha. Porque até a morte é uma parte da vida, inexistindo sem a primeira. A vida é uma linha do tempo onde nós construímos o que queremos ser, tendo que desvencilhar-nos de tentáculos que nos levam ao fracasso do ser quem queremos.

O que é a vida?

- A vida é um jogo de reflexão, onde construímos e desconstruímos teorias que nós mesmo plantamos e outras que plantaram em nós. E essa é a melhor parte dela.

Eu me emocionei escrevendo isso. Não emoção de chorar, mas de esfregar as mãos, sorrir sozinho, franzir o cenho e até suar e tremer um pouco. Descrever a vida não é fácil. Poucos conseguiram fazer mais de duas vezes no “Provocações”. O que você acha que a vida?

Dito várias vezes, sob meu olhar, o que é a vida, eu chego num ponto desse texto que pode te desanimar. Contudo, é uma conclusão que você provavelmente teria se tivesse feito essa reflexão antes. A vida é um errar contínuo. Você conhece alguém que, com qualquer idade, de tanto errar aprendeu tudo? Alguém que não comete mais nenhum erro? Você conhece alguém perfeito?

Esqueça suas paixões. Na paixão o outro é perfeito, porque guarda nele o amor que você busca – até que passe a ser outra pessoa esta que guarda, caso necessite de ser. Eu, você, ele, ela, eles todos cometerão equívocos das mais diversas espécies, cada um dentro do seu quadrado. Entenda: com o perdão da palavra, você faz cagada até quando acha que não fez, sem perceber. Mas tem um lado bom, se você tem habilidade nisso (eu considero que tenho relativa habilidade, o suficiente para que não seja acusado): as besteiras que você comete não repetirá. Portanto, ninguém tem o direito de dizer que um problema que hoje tens, foi causa de outro fracasso no passado. A menos que você mesmo chegue a esta conclusão.

A vida é um ciclo (vicioso) que algumas vezes nos leva ao mesmo lugar, ou à mesma situação. E o que você faz com ela é diretamente uma resposta ao que fez na rodada anterior. Exemplo: se você, desatento, confiou que um farol amarelo não fecharia antes que passasse, errou sua conclusão e levou uma multa, provavelmente no próximo amarelo você freia. Se você tomou uma decisão que tirou de você uma pessoa amada, e nisso a culpa foi tua, no seu próximo amor você apeifeiçoará o teu problema. E quem sabe até torna-lo virtude. É possível.

Portanto, repito: não é direito de ninguém acusa-lo de repetição de equívoco, pois o terceiro não viveu a tua vida, não fez as tuas reflexões, tampouco sentiu o que você sentiu naquele momento. Por isso que os velhos são sábios e, segundo aquele dito africano, “quando um velho morre uma biblioteca se incendeia”. Uma biblioteca de conhecimento sobre o que é a vida e como vive-la. Mas quem é velho suficiente para se prevenir de todos os equívocos? Basta, para nós, olharmos dentro do nosso próprio ser, e ter, acima de tudo, humildade para reconhecer a presença daquilo que muitas vezes nos magoa ou magoa um amado.

E no decorrer dos nossos dias aqui nesta Terra, nós vamos noite pós noite deitando na cama, refletindo, mudando, metamorfoseando as respostas para a mesma pergunta: afinal, o que é a vida?

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Onde a vida não é mentira


Peguei a estrada mais uma vez. Sim, depois de alguns milhares de quilômetros voando, dessa vez fui por terra, por asfalto, fui sentindo a textura do chão duro do Brasil...das Minas Gerais. E fui por consequência de um amor que encontrei no ano passado. Ela me fez depois de 13 anos voltar ao norte das Minas Gerais, terra onde melhor se aprecia a culinária no país e um dos redutos de maior recepção por parte de seus habitantes, com um sotaque pra lá de gostoso.

Pouso Alegre, Varginha, Lavras, Belo Horizonte...foi tudo ficando para trás. Depois de várias horas de viagem, o sol vai caindo, passa Curvelo, Corinto, Montes Claros. Neste ponto eu senti o cheiro do destino, mas ainda tinha chão. Salinas, o cheiro da cana, da cachaça que é tesouro em qualquer lugar do mundo. Em Taiobeiras que eu me senti de novo “em casa”. Sim, porque vovó morou mais de uma década em Januária, pedaço que visitei por algumas vezes e já me sentia em terra minha. Era meu reduto de férias, porque não?! Taiobeiras já me remeteu à infância e adolescência. Mais um pedacim de terra e eu cheguei onde queria. São João do Paraíso, intitulada por ela própria de Capital Nacional do Doce de Marmelo. E com um doce desse, meu amigo, quem sou eu pra protestar esse título?!

Aqui eu quero falar da feira livre. Sim, eu estou escrevendo hoje aqui para falar sobre a feira livre de São João, aquela que você talvez vai uma vez por semana na sua cidade pra comprar uma verdura mais bonita e barata. Mas a feira de São João não é qualquer feira. A feira é um acontecimento, uma entidade, um local de encontros. Se você prefere o bar é uma escolha sua, mas o povo lá se encontra é na feira mesmo. Eu, de fora, fui comprar. Mas quantas não foram as pessoas que, observando, notei que só vai à feira para “ver gente”. Sim, param e conversam. Atravessam a barraca para ir até o lado onde está o feirante para experimentar o que ele vende, bater papo, abraçar e dizer que vai “visitar a roça”.

É sensacional. Eu guardei isso pra falar aqui no blog. Eu não disse a ninguém o que achei da feira e São João. Eu apenas lamentei ter ido embora na manhã do dia em que ela acontece. A sexta-feira. Desde segunda a expectativa é que chegue a sexta para ir à feira. Talvez os moradores da cidade não entendam o evento que é a feira, porque já é sua rotina. Mas quem chega percebe. Tudo que tem na feira veio direto do produtor. O produtor é o feirante. Ele tem o pedaço de terra na região da roça, no arredor da cidade. Ele planta e vende. Fabrica o queijo e vende. Faz o doce e vende...tudo na feira. Na época que eu fui era a hora do pequi, da manga, da jaca...e do marmelo. Quando chovia eu sentia o cheiro da jaca. Em qualquer momento sentia cheiro do pequi. Uma pintura amarela em cada estrutura de madeira da feira. Nessa feira ninguém grita, ninguém chama freguês, ninguém dá cantada na “moça bonita, que não paga, mas também não leva”. Nessa feira você para no meio do corredor para cumprimentar alguém que passa, que possivelmente é parente de alguém que você conhece – ou seu próprio parente – e ninguém reclama que está bloqueando a passagem.



É uma satisfação ir à feira. Igualmente à roça. O cheiro de saúde, de plantação. O milharal, o cafezal. Toda árvore é frutífera. Se o celular não tem sinal não tem problema, as pessoas sentam e conversam. Pega a fruta no pé e come. Muitas vezes não precisa nem de faca, viu homem da cidade?! Rasga com o dente, se lambuza, se diverte e depois se lava. Não se passa fome. Come e vende na feira. A estrada é “de chão”, terra vermelha, você segue e vai deixando poeira para trás. A sensação é de liberdade. E você pensa quanto espaço existe no Brasil para tanta gente estar ‘muquiada’ em metrópoles estressantes, poluídas e cansativas.

Tudo foi proveitoso. Tudo foi positivo. O descanso, a reflexão, o que guardei pra mim, o que expressei. Cada cerveja tomada, cada carne com “boi berrando” saboreada, cada amizade começada. O clareamento e descanso da mente e da alma. Tudo vai ficar na memória e na vontade de voltar. Mas sempre tem aquela coisa de cada lugar que te chama atenção, que vira o símbolo do local na sua cabeça. Ahhh, a feira. A feira de São João do Paraíso. A feira! Lá a vida não é mentira.

“Sou, sou desse jeito e não mudo
Na roça ‘nóis’ tem de tudo
E a vida não é mentira
Sou, sou livre feito um regato
Eu sou um bicho do mato
Me orgulho de ser caipira”
(Chitãozinho e Xororó)


terça-feira, 6 de novembro de 2018

Ganhei na Mega-Sena


Eu ganhei na Mega-Sena. E agora?

Meu Deus, tem tanta coisa pra fazer que eu nem sei por onde começar. Nossa, é muito dinheiro. Deixa eu pensar aqui. Bom, vamos lá.

Eu vou investir 80% desse dinheiro em ações da bolsa e no tesouro direto. Eu quero fazer esse dinheiro render bastante num médio prazo. Com outros 10% eu decidi que vou abrir uma instituição que trata das crianças com câncer. Não terá fins lucrativos, vou trazer para a clínica apenas crianças que não têm condições de pagar por tratamento. A casa será sustentada através de ações beneficentes...mas se precisar eu pego metade dos 80% investidos e coloco lá. Não tem problema.

Sobraram 10% do dinheiro. E com este eu não vou mudar minha vida ainda. Eu vou mudar a vida dos outros. Então vamos fazer aqui uma lista de quem eu posso ajudar agora, de imediato, com essa grana. Mas devagar e silenciosamente, quem sabe até na base do anonimato. Passa tanta coisa na minha cabeça, eu simplesmente estou confuso com tudo isso. Jamais imaginei ter tanto dinheiro. Se eu quiser sacar não dá.

Para meus pais eu vou dar um canto onde eles quiserem. Eu sei que meu pai quer um sítio e se ele quiser ir para um e viver do lugar, eu dou um jeito de pegar uma fatia do juros do dinheiro investido para montar um negócio para ele lá. À minha avó darei tudo que ela precisar para ter vida agradável, até que Deus lhe tire.



Mas aquela mulher precisa muito, aquela que mora longe. Embora eu não fale mais com ela pelas circunstâncias, ela é uma guerreira. É cabeça dura, mas não é culpa dela. Cria as filhas com o trabalho árduo e sem preguiça. Ela mora num local que não merece pelo tanto que trabalha. Para ela eu vou dar um canto digno para morar. Aquela outra é como se fosse minha irmã. Ela chora muito, tem o emocional abalado e trabalha mais do que descansa. Trabalha para sobreviver, é mais velha do que eu e ainda não conquistou o que quer na vida. Ela vive de lampejos de felicidade, mesclados com momentos de tristeza e melancolia. Eu ainda não sei como ajuda-la, mas eu não vou medir esforços para fazer. E vou conseguir.

Tem aquela outra. Essa tem muitos filhos, quase todos já criados. Não passa necessidade, mas mora numa cidade pequena e não consegue ter uma renda que lhe dê vida satisfatoriamente confortável. Eu não a conheço pessoalmente, acredita?! Mas eu a amo só por ela ser amada por quem eu amo. E eu conheço pedaço suficiente de sua história de vida para colocar na sua vida quantia necessária para ela fazer o que quiser no seu grande terreno e quem sabe lhe dar um pedaço de terra na roça. É só ela querer!

Existem outras pessoas a quem eu quero ajudar, em quantias menores, mas que as faça sorrir. Esses 10%, não se enganem, é bastante dinheiro, dá pra fazer tudo isso e muito mais. O que sobrar, eu vou comprar uma propriedade e abrigar uma família que eu não conheço. Alguma que vive na rua e que tenha filhos pequenos. Eu vou dar a eles um teto para se abrigar, mantimentos para se manter durante um tempo e uma qualificação para que possam conseguir trabalho e se manter. E vou ensinar a eles que eles estão recebendo aquilo para que no futuro possa fazer o mesmo por outras pessoas.

Eu estava pensando aqui e acho que dá sim. Mas se não der, eu tiro um pouco dos 80% investidos. Transformo em 75% de investimento e turbino o dinheiro que tirei para melhorar a vida daqueles que eu amo. A cabeça fica uma turbina quando se ganha tanto dinheiro na loter...
Ouço uma buzina estridente. Até pulei do banco do motorista. Alguém atrás de mim buzinou. O farol lá na frente abriu e o trânsito andou. O carro à minha frente já estava uns 100 metros distante e eu acordei dos meus devaneios.

No rádio, Carol Goes finalizava a notícia: “...22 milhões é muito dinheiro, hein Kadu?! Com esse dinheiro eu daria risada por um bom tempo”.

Balancei a cabeça para acordar. Vi uns trocados no painel do carro. Moedas que uso para pedágio, zona azul ou mesmo para doar no farol. Mas alguém vai ficar sem trocado hoje. Acho que com essas moedas dá pra fazer um jogo. Vai que...

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Vida


Eu gosto da intensidade. Seja lá o que eu faço, gosto de fazer com fervor.

Eu gosto de me entregar. Para tudo. Mas sobretudo para as pessoas. Eu posso listar pessoas para quem eu daria minha vida. E não me arrependo por isso.

Eu fui casado, mas me separei. Vivi com a mesma pessoa por sete anos. Fiz quase tudo que gostaria de fazer. O que tive tempo fiz...e fiz com prazer. Eu não me arrependo de uma vírgula do que fiz na vida. Com tudo eu aprendi. Com ela não foi diferente. Eu aprendi e ela também. Juntos passamos dias maravilhosos, graças a Deus. Eu faria absolutamente tudo de novo. Porque houve entrega. Se no meio do caminho teve uma rocha, paciência. Mas antes das rochas nos livramos de pequenas pedras com facilidade e seguimos sorrindo. Hoje, ela segue seu caminho e eu o meu. E a única coisa que consigo desejar a ela é a maior felicidade que ela possa ter na vida. E que nunca lhe falta saúde e amor, que é o combustível para uma vida boa.

Então, eu segui. Eu não vou desistir do amor. E mesmo que tivesse refletido sobre isso, eu jamais imaginaria que as coisas na minha vida a partir deste momento voariam tão mais rápido como havia sido antes. Tampouco imaginei que meu coração tivesse tanto amor transbordando e que logo derramaria. Sou da fé Cristã. E Deus é muito generoso comigo, ele cicatriza rápido minhas feridas e costuma, vez ou outra, me premiar – embora em outras vezes me senti prejudicado, mas eu o perdoo.  E no meio deste caminho eu encontrei alguém. No mais puro acaso, como no meio de um cafezal em plena colheita, eu encontrei alguém em quem vi, posteriormente, mas não tão longínquo, a alma que me completaria a lacuna que lá estava.

E apenas neste momento, com 28 anos recém completos, que eu me descobri sentimentalmente. Eu descobri que o que eu mais tenho dentro de mim é amor. Eu tenho uma tonelada de amor pra dar. E minha missão aqui é essa. Despejar momentos felizes na vida de quem eu amo. Assim como fiz antes, resolvi me entregar ao cupido mais uma vez e farei de novo. Se vai ser pra sempre? Não sei. Espero que seja. Mas se não for terá de ser, como sempre fiz, intenso enquanto acontecer. Se for pra amar, que seja intenso...até o último nível. Eu odeio coisas mal feitas. Se for fazer, faça direito. Se for amar, ame muito. Nessa empreitada eu tive a sorte (será que é sorte?) de ser amado também. Não de forma igual, mostrando os mesmos atributos ou tomando as mesmas ações. Aprendi – com ela, inclusive – que as pessoas são diferentes. Cada um ama da sua forma. O mais importante é você sentir o amor que o  outro lhe dá e, principalmente, SER FELIZ. Fazer o que te faz feliz.

Agora, eu cheguei no ponto que gostaria de abordar, como protagonista deste texto. Você faz o que te faz feliz ou você deixa de fazer alguma coisa pensando no que o outro vai pensar? Depois de alguns dias eu tomei uma decisão que tem gente que leva anos pra tomar. E tem gente que nunca tomou, ou porque não achou que devia ou porque colocou à frente de suas vontades a opinião popular. Eu não vou mais deixar de fazer o que eu quero porque o outro acha que não devo ou que não é a hora ainda. Eu não vou mais fazer planos a longo prazo. Eu decidi que da minha vida cuido eu. Se foi tarde demais não importa. Eu resolvi viver o agora, porque se no agora eu for feliz, a consequência disso não pode ser tristeza. É IMPOSSÍVEL ser triste como consequência de bons momentos. Mesmo que haja feridas, elas aconteceram porque você foi. E elas cicatrizam. Já cicatrizou quantas vezes?

Eu choro. Homem chora sim. Até Jesus chorou, né Brown? E o choro, muitas vezes, é aliviador. Nossa, como chorar é bom. Parece um remédio. Então, quando machuca, eu não seguro, eu choro. As vezes eu uso amigos e desabafo. Mas, na maioria das vezes, eu apenas choro sozinho.  Então, eu não tenho mais medo de cair e me ralar. Se isso acontecer, eu choro e estou curado. A vida é uma passagem, nada justifica o desespero. Já já nós não estaremos mais aqui. E aí a dor no coração e a conta alta impagável não existirão mais. Por isso eu resolvi viver. Só isso...viver e fazer o que me deixa feliz, o que me tira sorrisos e, não menos importante, o que tira sorrisos de quem eu quero bem – e é muita gente. Eu recomendo.

Nosso tempo é precioso, não dá para perder com coisas fúteis e nem com opiniões que não vão te tirar do lugar. Cada segundo é importante. Notou como o tempo passou rápido? Esses dias você brincava na rua, só se preocupava com a escola. Agora, olha o teu tamanho. E o que você fez? Se você morresse hoje, estaria satisfeito? Eu resolvi que sim, vou fazer para mim o que me deixaria satisfeito se amanhã eu fizesse minha passagem. E pronto!

Depois de toda essa reflexão eu decidi. Compartilhei a minha decisão com uma das pessoas que mais amo nessa vida, cuja opinião sobre isso não poderia ser diferente da que ouvi. Eu compartilhei com ela porque ela ia falar o que eu queria ouvir. “Ah, mas ouvir o que quer é fácil”. Sim, porque ouvir SOBRE MIM o que eu não quero fazer não me interessa mais. Então, ela disse “você é doido menino, mas se é isso que quer, se é o que te faz feliz, faça. Se você está feliz, eu estou também”. Você poderia ouvir algo melhor que isso??? É além do limite do “eu te amo”, meu amigo. Eu só queria ter certeza de que eu ainda tenho quem me apoie. É claro que isso pode não ser bom para ela, mas é para mim. Assim como o que ela faz da vida dela pode não ser bom para mim, mas é para ela. E tá tudo certo. Cada um faz pra si o que lhe faz feliz.

Mas, voltando ao meu coração e ao companheirismo que decidi ter a partir de agora até não sei quando. Sabe o que me faz feliz? A presença dela. Sabe o que me faz feliz? O sorriso dela. O que me faz feliz de verdade é a palavra dela, é o “te amo” dela, são os desejos dela, é o pulo dela nos meus braços quando eu chego, é a lamentação quando eu vou embora. O que me faz feliz é o bom dia dela que já está lá quando eu acordo. É a ligação dela quando percebe que eu estou perdendo a hora. A minha felicidade é ter ela sentada do meu lado. É o “sim” dela toda vez que proponho algo, independente do que for. É o companheirismo, a amizade, a cumplicidade, o desejo e a vontade de tê-la todos os dias em vez de só aos finais de semana. O que me faz feliz é ela ser.

Talvez o que te faça feliz é fazer o que quer, chegar em casa a hora que quer, não ter louça pra lavar, roupa pra lavar e passar. Talvez, para você, ser feliz é ir pra balada, ou simplesmente não ir se não quiser. É sair hoje com uma pessoa e poder sair com outra na semana que vem. Tá tudo certo, continue fazendo isso. Não existe receita de bolo para a felicidade. Pode ser que pra você ser feliz é viajar toda semana ou ficar em casa no ócio durante três dias de um feriado prolongado. Pra você, ser feliz pode ser correr no parque, ouvir uma música, encostar numa árvore e ler um livro. Eu gosto de várias coisas que exemplifiquei neste parágrafo. Mas, para mim, ser feliz de modo completo, é ter quem eu amo do lado. E neste momento é ela quem vai receber isso de mim. Para mim, agora, ser feliz é tê-la comigo. Não tê-la para mim, como posse, mas tê-la comigo como companhia para ver um filme, dormir, sair e chegar. Ser feliz, para mim, é ter louça de dois pra lavar, é ter roupa de dois pra passar, é limpar a casa que dois sujaram. É chegar em casa e ver o sorriso porque eu cheguei, é receber com sorriso a chegada dela. Ser feliz para mim é saber que ela saiu de casa em cima da moto e, sob minhas orações, chegou em segurança no trabalho. Ser feliz pra mim é mandar o áudio que ela pede durante o dia pra anima-la, é receber a foto dela com as crianças da escola. Ser feliz pra mim é saber que ela quer ter um dia livre pra fazer meu bolo fit ou meu cookie de aveia e cacau zero açúcar. Ser feliz é saber que ela cuida de mim como eu cuido dela.

Dito isto, sem mais delongas, eu decidi então chama-la para jantar um dia após o do número que ela gosta, porque no dia do número eu fiquei impossibilitado. E, sem pensar no que os outros vão dizer, eu pedi a mão dela. Não porque quero fazer um festão. Mas porque quero viver com ela, em função dela e ela em função de mim, a partir de breve. Uma semana antes eu encomendei o anel...do jeito que ela queria, do tamanho do seu dedo anelar da mão canhota. E abri a caixinha quando ficamos só nós dois, sem presença de garçom. Ela não gosta de surpresa em público, já havia me dito que se eu fizesse em público ela ficaria brava e sairia correndo. Mas quem disse que eu ligo para público? Agora não sou mais eu e nem é mais ela. Somos nós. E dane-se o que pensam os outros. O importante para mim é que as pessoas que eu amo vão me apoiar, disso eu não tenho dúvidas. Porque a partir de então nós vamos brincar de vida e cuidaremos só da nossa.



terça-feira, 19 de junho de 2018

O mar

A natureza do mar é tão maravilhosa como qualquer descoberta humana na ciência. A água vem de longe, as ondas quebram na praia, uma a uma, e depois voltam, até beijarem novas ondas que vem e vão, perdendo-se no oceano infinito ao olho humano. É um ciclo que não se acaba.

sábado, 2 de junho de 2018

Surpresa



Há alguns dias Letícia sentia uma diferença no comportamento de Roberto. A casa que eles pensavam em reformar ainda estava do jeito que fora construída. Nada havia sido mexido, por mais que Letícia tentasse furar a barreira espessa dos desvios de conversa do marido. Notava um distanciamento incomum dele para com ela.

- Roberto, e a nossa reforma? Não vamos mais falar sobre isso? – ela tentou.

- Calma, Let. Depois a gente vê. Você sabe que ando atribulado de trabalho.

- Mas nós não falamos nesse assunto há semanas.

- Prometo que em breve a gente volta a tratar disso, ok? – Ele se levantou, deu um beijo na testa da esposa e subiu para o quarto.

Letícia chorava em silêncio. Ela tinha no escritório onde o marido trabalhava uma amiga que ele não sabia. A secretária do gerente de finanças era sua aliada e ela havia pedido para que a moça o observasse. Desconfiava que poderia estar entrando em cena uma terceira figura que pudesse atrapalhar seu matrimônio. Mas Vera, sua aliada, nada havia notado nada de diferente nas ações de Roberto. Na última ligação, Vera tranquilizou Letícia.

- Amiga, não tem nada. Ele continua na sua rotina normal. Já fui até almoçar no mesmo restaurante sem que ele percebesse e não vi nada de estranho. Ele continua almoçando com o Miguel e o Carlos. E quando sai daqui vai direto para casa – confirmou.

- É, ele tem chegado no horário normal. Exceto por segunda-feira, que chegou um pouco mais tarde e disse que era porque demorou a terminar o relatório.

- Que relatório? – Indagou vera.

- Eu não sei, não faço ideia de suas atividades. Só disse que atrasou um relatório importante e por isso ficou um pouco mais. – O silêncio de Vera do outro lado da linha colocou uma dúvida ainda maior na cabeça de Letícia.

- É...talvez. Bom, preciso desligar, ainda tenho de preparar o jantar. – Finalizaram a ligação.
Letícia passou a noite pensando no diálogo que tivera com Vera e desde então não conseguiu dormir direito. Depois de tanto refletir, tomou uma decisão.

Naquele dia ela resolveu tentar pegar Roberto em flagrante na sua saída do trabalho. Vestiu-se com uma roupa que não costumava usar e saiu no horário do final do expediente do marido. Estacionou o carro na avenida perpendicular de onde Roberto deixava o seu.

Não demorou muito e ele saiu do prédio. Parecia apressado e preocupado com quem andava à sua volta. Entrou no carro e saiu. Letícia o seguiu a uma distância segura e sentiu um gelo na espinha quando ele virou à direita, numa direção que não era a de sua casa. Andou duas quadras e estacionou. Saiu do carro com uma maleta, atravessou a rua e entrou num café. Letícia respirou fundo, fechou os olhos, abriu-os depois de alguns segundos e deixou o carro.

Foi até a porta do café e, sem entrar, olhou para ver onde estava Roberto. Ele se encontrava no canto oposto à porta, encostado no vidro lateral do ambiente, de lado para onde estava Letícia. Na sua frente uma moça, bem vestida, de cabelo escuro e liso. Ela sorria para ele e ele devolvia o gesto. Letícia não sentia o chão sob seus pés. A única ação que pôde fazer, sem perceber, foi pegar seu carro, ir até a casa, organizar tudo que poderia levar e sair. Sua intenção era nunca mais ver a figura de seu marido na sua frente. Ela não precisava ver mais nada.


O cerco estava se fechando. Roberto já notava na mulher uma inquietação e ela o questionava demais nos últimos dias. Ele já tinha certeza que suas atitudes haviam mudado sem que percebesse apenas pelas ações de Letícia. Não sabia mais como esconder aquele segredo da mulher. Teve de acelerar o processo e marcou um encontro por telefone.

- Pode ir amanhã? Por favor, eu preciso falar com você. A Letícia tá no meu pé, acho que está desconfiada. Ok, então amanhã após meu expediente, ali no café da quarta avenida. Obrigado. Beijo. – encerrou a ligação, enquanto Letícia estava no banho.

No outro dia, ao final do expediente, Roberto saiu. Pegou seu carro e foi até o café, onde havia marcado o encontro. Quando chegou, ela já estava lá, sentada numa mesa ao fundo.
Ele se sentou, pediu uma bebida e se pôs ansioso. A arquiteta era uma indicação de confiança, ele tinha certeza que naquela conversa começaria a realização de um sonho e a reforma de sua casa ficaria do jeito que a esposa queria. “Letícia vai amar”.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Reflexões


Depois que chegamos à ilha, eu tomei um banho de mar para aquela tradicional lavada na alma com sal. O sal parece que limpa nossos sentidos, deixa para trás algumas coisas que talvez nos incomode. Entre o som do mar e de algumas conversas que me pareciam estranhas, eu ouvia notas musicais vindas do nada, eu não tinha fone nos ouvidos. Apenas sentia o quente do sol e o áspero da areia.

Mas onde me achei foi na rocha. Localizada no canto, alguns palmos abaixo do nível da água com a maré baixa. Dali eu me aproximei e eu me sentei. Apoiei meus pés e abracei as pernas. Naquele momento, naquele pequeno momento de apenas alguns minutos, eu me senti verdadeiramente bem. Parecia que tinha capacidade de, se quiser, voar. Aquela brisa boa batendo no rosto, os olhos fechados. Foi nesse momento que eu desejei em meus devaneios jamais sair dali. Mas o barco chegou.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

A música é o combustível do imaginário


Acredito que com esse título até seria dispensável qualquer texto. Diretamente é isso: a música é o combustível do imaginário. Mas como é gostoso imaginar coisas, viver dentro de si fantasias que no mundo real muitas vezes são até impossíveis. Melhor é quando o fato é palpável. Mas se for um desejo, aproveite a música para viver hoje o que você deverá fazer amanhã.

Ouvir um som enquanto não está fazendo nada é como começar a escrever numa página em branco dentro do cérebro. Você escreve ou desenha lá tudo que aquele som lhe trás de bom. Foi isso que me incentivou a ouvir rap. E também o samba, que hoje faz parte da minha rotina. A música nacional é um combustível rico. Se a música fosse como a gasolina, a música nacional seria a gasolina aditivada da imaginação.

A reflexão musical se estabelece quando a sua cabeça está vazia para a letra da canção penetrar e moldar uma ideia, desenhar um cenário ou mesmo te levar para um lugar que jamais esteve através da criatividade. Aliás, a criatividade do compositor aguça a sua, que por vezes nem tem relação com a que ele teve quando escreveu. Que loucura é a música. O que seria do homem sem a música? Que vida triste teríamos sem a arte musical que nos enriquece de conhecimento e êxtase.

Música boa é aquela que te ativa os sentidos. A que toca o coração. É como a bebida. Bebida boa é aquela que agrada o seu paladar. A música boa é a que agrada seus ouvidos e coloca o seu cérebro para funcionar do ócio. Se você, como eu, é movido à música, utilize-a o tempo que puder. Ela é a arte mais extraordinária inventada pelo homem.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

O rodeio da vida


A verdade é que não é o que você acha. Você pensa que tem o controle, não é? Mas não tem. A verdade é que muitas vezes você não é o que pensa que é, não faz o que pensa que faz e nem passa a mensagem que acha que passa. A verdade é que há uma confusão natural na sua cabeça que você não sabe identificar. Você pode discordar, mas tem coisa que as pessoas sabem de você que nem mesmo você sabe. É aquela coisa do costume de ser quem acha que é, mas não é, saca?! A real é que é difícil se interpretar. Você toma suas decisões e nem sabe as enxerga da forma como ela são.

Esse mundinho aqui não é fácil de entender, irmão. Quando você acha que vai dar o bote nele, ele te liquida na base do soco. Mas nem sempre assim. Às vezes você pensa em dar um soco no mundinho e ele te acaricia, te dá um travesseiro, te coloca no trilho, abre teu olho e você desiste. A vida quando parece azeda, adoça. E quando você acha que está doce, ela amarga. Não é louco isso?! Mas ela é uma só e essa intensidade é positiva, por mais que muitas vezes possa não parecer. Já imaginou o tamanho de sua história quando tiver 50 anos? Já tem? Então já sabe! A nossa vida é um roteiro sim. Talvez você possa molda-lo. Mas a chance de não ser como você realmente imaginou é grande. Mas se conseguir aproximar disso, sinta-se um vencedor. Sim, a vida é um morde e assopra como esse texto.

A verdade é que a vida te engana. E você não tem saída. Agora sorria e vá!

segunda-feira, 26 de março de 2018

Imunização racional


Dentre tantas obras fantásticas que o fez se tornar um dos maiores monstros da música nacional, Sebastião Rodrigues Maia escreveu uma canção chamada “Bom senso”. É uma das músicas tupiniquins que eu mais aprecio, talvez por me enquadrar nela. Mas quantas pessoas não se enquadram?

Se você nunca ouviu, abra o youtube agora e faça essa benfeitoria para os seus ouvidos e cérebro. “Já senti saudade, já fiz muita coisa errada, já pedi ajuda, já dormi na rua”. Você certamente já fez uma ou todas essas coisas. “Mas lendo atingi bom senso, a imunização racional”. Não há nada melhor para o desenvolvimento do indivíduo do que a leitura. Ela é um complemento da experiência. Lendo atinge-se o bom senso. A leitura ensina a viver, ensina a desvendar, a entender, a interpretar, a pensar.

Tim Maia colocava em suas letras a sua própria vida. Talvez por isso me cativa tanto e não sai dos meus fones de ouvido por muito tempo. E em “bom senso” ele descreve tantos de nós e ele mesmo. Nós somos como Tião. É vivendo que se aprende, é lendo que se atinge o ápice da capacidade cognitiva e racional.

domingo, 25 de março de 2018

Inspirações e costumes: minhas loucuras


A lente de contato irritou. Eu extrapolo, fico com ela durante o dia todo, até o momento de deitar para dormir. Mas foi no momento em que eu tive vontade de sentar aqui e escrever este texto que eu a retirei dos olhos e peguei meus óculos.

Eu ligo meu computador quando recebo uma inspiração, preparo algo para beber e me ponho a dissertar. Hoje eu resolvi escrever sobre como faço isso aqui existir. Eu tenho devaneios de assuntos diversos. Viajo em minhas ideias, divago por oposições ao meu próprio pensamento e chego a uma conclusão que nem sempre é a mesma do começo da reflexão. E eu gosto de quando é assim.

Eu tomei um gole do cappuccino que preparei para sentar aqui agora e quase derrubei. Mas hoje eu não ficaria enfurecido. É domingo a noite, momento de ócio, solidão e melancolia. Mas eu estou apenas com o ócio e mais neutro em emoções do que nunca. Diria que neste momento eu sou uma pessoa fria, quase gelada. Esse texto é apenas a necessidade de colocar alguma coisa na página de word em branco que foi transferida para essa página com fundo marrom na internet. Eu gosto desse ambiente marrom, você gosta também?

Eu tiro inspiração do cérebro vazio, da bebida que eu tomo, da música que eu ouço, dos livros que leio e até de algo que uma pessoa disse pra mim em alguma rede social. Eu adoro quando despertam em mim uma curiosidade. Eu só não gosto quando minha cachorra late ou não deixa eu ver TV porque fica entrando na minha frente. Está passando um show na TV neste momento e eu coloquei no mudo. Está com uma cara de show muito ruim. Eu não conheço a moça que canta, mas por mais que seja ruim ela expôs o seu “eu” nas canções e isso é bom. Eu faço isso aqui, mesmo sem saber se quem lê gosta.

Eu não gosto de quando pessoas com conversas agradáveis ficam dias sem falar comigo. Mas eu não digo isso a elas, tenho medo de ser inconveniente. Por outro lado eu fico feliz quando alguém lembra de algo bom que eu fiz ou estou fazendo. Eu não sou daqueles que gostam de ficar expondo tudo que faz, mas recentemente eu descobri o tal do “status” do whatsapp e achei engraçado. Mas não vou ficar muito tempo, como fiz com o snapchat. Tem coisa que é muito banal e eu não tenho paciência de permanecer.

Eu não fumo. E não sei como. Eu tinha todos os motivos para fumar, mas não gosto. Mas se você for fumar alguma coisa perto de mim, por favor, que seja maconha. Eu odeio cigarros. Eu nunca coloquei nada de fumo na boca. Meus vícios são outros. Eu sou viciado em café, eu adoro tomar cerveja, tomo a qualquer momento em casa, sozinho. Dá vontade, eu abro uma lata e tomo. Uma só. Eu sou viciado em erva mate enquanto estou tomando meu tereré. Eu tenho a impressão de que eu não vou parar de beber nunca. E quando eu tenho de parar fico triste. Eu sou viciado em ler, embora eu não esteja lendo nada a longo prazo agora e há algum tempo eu não estudo nada.

Eu sou viciado em escrever. Por isso eu tenho essa página. Aqui eu gosto de expor coisas para que as pessoas reflitam e também escrevo alguns contos, como talvez você já tenha lido. Eu já perdi várias ideias por não ter anotado achando que não esqueceria. Comprei um bloco de notas físico porque não me dou tão bem com notas do celular. Fiquei andando com ele por uns dias, anotei umas ideias, coloquei-as em prática e depois abandonei o bloco. Agora eu tenho ideias, mudo de música e as esqueço. Eu tenho pronto um roteiro de livro, mas tenho medo de escrever. É sério. Não é pânico, é medo. Então, a qualquer momento eu vou começar. Sobre isso eu posso falar em outro texto.

Eu vim aqui neste domingo a noite de ócio escrever apenas algumas coisas sobre mim. Não deve ser interessante pra você, mas serviu para eu pôr pra fora um pouco dos meus costumes, sobre minhas inspirações. A vida me inspira...e eu escrevo. Meu cappuccino acabou, então eu vou parar por aqui.

quinta-feira, 15 de março de 2018

O poder da memória


Dentre tantas outras referências, vivemos a época do registro. Todo e qualquer momento considerado especial na vida de um indivíduo, está aberta a câmera do smartphone e um clique é feito frente a sorrisos e poses. E se a imagem não ficar boa, sob avaliação de alguém, ela é refeita. O registro é, na maioria das vezes, exposto nas redes sociais para que as outras pessoas vejam. Em shows as pessoas filmam, fotografam, gravam áudio. Em pedidos de casamento um terceiro filma. Em encontro com amigos num bar é feito uma álbum cheio de fotografias. Mas o melhor e mais importante registro é o da memória. A minha memória tem mais espaço que o meu HD de 500GB ou meu cartão de memória de 16GB do smartphone. A sua também tem. O espaço da memória humana é maior do que qualquer objeto ou plataforma mensurável.

Portanto, a melhor forma de registrar um momento é não esquecendo que um dia ele ocorreu. Se um dia você tiver um momento de alegria comigo, nunca se esqueça. Eu também não esquecerei e o registro estará feito. O mais valioso deles!

quarta-feira, 14 de março de 2018

As leis da vida e a vontade do homem


Talvez a humanidade seja muito recente para que a ciência da psicologia tenha descoberto tudo que nos envolve. Acredito que ainda há muito a descobrir sobre o intelecto humano e suas capacidades, até porque o mundo está em constante evolução e o ser humano nela está envolvido.
Mas andei pensando sobre duas vertentes que se esbarram no meio desse caminho que o homem trilha. Aqui nesta terra há duas coisas distintas entre si e que geram um desagrado e, talvez, sejam elas as responsáveis pela maior dificuldade do ser humano de se encontrar individualmente: as leias da vida e as suas vontades.

A vida humana tem suas leis. Elas são compostas por coisas que a gente não domina. A filosofia e psicologia tentam explicar, até com relativo sucesso, como algumas delas ocorrem e qual a forma de conviver com elas harmoniosamente. Aquilo que a gente não escolhe que aconteça – a morte é a mais básica delas – e que temos de achar ferramentas para transpô-las. A capacidade do ser humano de amar é uma delas. Amar, apaixonar-se não é uma escolha. É uma lei da vida. É a consequência de múltiplos atos praticados pelo indivíduo que, muitas vezes, ele nem percebe que os praticou. Em ocasiões ele não quer e/ou a segunda pessoa envolvida não deseja e o cidadão maravilhado pelo sentimento de borboletas no estômago tem de quebrar a barreira que ele não pediu para que aparecesse.

Imagem retirada do site www.medium.com

Do outro lado existe a vontade do ser humano. Essa, perante a primeira observação feita acima, é a mais complicada. Tudo porque as vontades do ser humano quase nunca sobrepõem as leis da vida. Nossas vontades são uma marolinha perante aquilo que não dominamos e que nos acontece sem escolhas. Talvez o querer seja a virtude menos interessante da vida humana e certamente é a origem de todo o sofrimento. O ser humano nem sempre “tanto faz”. Ele quer. Desejo é eros, dizia Platão. Eros é a vontade daquilo que lhe falta. E possivelmente o que lhe falta continuará faltando em respeito às leis da vida.

O ser humano tem livre arbítrio até a página dois. Ele foi abastecido por sentimentos incontroláveis que não é de sua escolha e elas não farão frente a esses sentimentos. Agora, pare para pensar nisso que lhe contei após uma breve reflexão. Não é o desejo a origem de todo o sofrimento? Por outro lado, talvez você imagine que não, que a origem de todo sofrimento seja as leis da vida. Mas nós nos adaptamos conforme as leis ou as leis que se modificam pelas nossas vontades? O ser humano evolui. E muitas vezes mudou geneticamente para se adequar às leis da vida e ultrapassar com tranquilidade suas dificuldades. Será que ainda passaremos por uma metamorfose psicológica para aguentar o tranco que a vida nos impõe?

Esse é apenas um pedaço dos meus devaneios para a reflexão do leitor. Pensar as vezes faz bem, mesmo que pareça uma bobagem. Uma coisa eu alerto, caso ainda não pratique: interprete bem as leis da vida para que suas vontades e desejos não deem de cara com aquilo que não podem competir, porque a dor da batida é latejante e covarde.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Reflexão sobre a morte


A morte é escrota.

Me desculpe pelo termo chulo usado na frase anterior, mas foi o adjetivo menos agressivo que achei para traduzir algo em que tenho asco quando penso, embora pense com frequência.

Ontem me encontrei com dois amigos para sentar numa mesa de bar, pedir cerveja e conversar com qualquer jogo ao fundo na TV. Uma conversa que foi uma mistura de desabafo, com papo em dia e lembranças. E numa dessas lembranças veio à tona a saudade de um amigo. Um indivíduo querido no nosso grupo de estudantes, quando começamos a faculdade de jornalismo. Tão querido que deixou o curso no meio e não deixou seus parceiros para trás.

Nós o perdemos há quase três anos para um acidente automobilístico. É aquela morte que não se espera e nem se entende por dias. Há quem tenha uma visão menos pessimista da morte. Mas a maioria das pessoas enxergam esse estorvo da vida como um fato inaceitável. Porque eu poderia ter naquela mesa mais um amigo e simplesmente não tenho. Não terei mais. A minha vida vai chegar ao fim e eu não mais o verei. E esse pensamento machuca, é entristecedor. E achou aquela mesa numa de nossas lembranças em que nosso amigo esteve presente através de lembranças, sempre positivas.

Num determinado ponto da conversa um dos meus parceiros sentados à mesa disse: “eu fui na pior parte, a do sepultamento. Fui eu quem viu a primeira pá de terra sobre a urna e é inacreditável”. É isso que dói mais. É desesperador ver a terra cobrindo um corpo que há pouco tempo te abraçava, te sorria, vivia.

Ele não sente mais nada. E nós? Nós sofremos, choramos, sentimos falta, perdemos um pouco de nós mesmos em cada pessoa que a gente tem carinho que se vai. A terra não cobre só uma urna, ela cobre uma história que antes era viva. Cobre sonhos, esperança, desejos. A terra cobre um pedaço de nós, só não passa pela garganta, onde a partir daquele momento existe um nó.

A morte é escrota.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Desapegue da virada, a vida é contínua

Eu mudei em 2017. Mas não mudei porque foi em 2017 ou porque meu objetivo era mudar em 2017. Não! Eu mudei naturalmente em 2017. E vou explicar o quê e porquê eu mudei.

No final de 2016 eu fiz igual a você: tracei todos os meus objetivos para o ano que entrava. Prometi que voltaria para a academia e cumpri. Prometi que voltaria a jogar bola e cumpri parcialmente, comecei e parei. Mas projetei que em março deste ano eu começaria a escrever meu livro. Parei no roteiro. Não escrevi uma linha sequer. Apenas abri este blog para a publicação dos meus contos e crônicas, que até então só eu conhecia, ficava guardado dentro do meu eu. Mas há um bom tempo eu não escrevia nada aqui. Sabe como é né?! Muito trabalho e as prioridades vão nos consumindo.

Agora, vai chegando ao final o ano de 2017. E o que eu aprendi com ele? Aprendi que não devo me apegar à mudança de ano. O que é a mudança de ano senão um gatilho que não funciona? As promessas para o ano que se inicia não passam de mentiras que massageiam nosso ego a fim de nos dar um conforto que na verdade não existe, é forçado e invisível.
Comece hoje, não deixe para janeiro – muito menos para depois do carnaval. Comece hoje, não deixe pra segunda-feira.

Porque esperar passar as festas para começar a sua dieta? Comece hoje! Porque esperar segunda-feira para começar a academia? Vá hoje, mesmo sendo quarta!!! Porque programar para dia primeiro de um determinado mês, se hoje, meio do mês, é um dia tão normal quanto o primeiro do mês seguinte?
Deixar para depois é bobagem. A virada do ano é simbólica para nós. Ela só serve de referência astronômica. Nada mais é do que uma volta da Terra ao sol. O dia primeiro de janeiro é exatamente igual a qualquer dia do mês de maio. A vida é contínua. A vida é como uma régua gigante, em que você não precisa chegar ao centímetro exato para apertar o gatilho do seu objetivo. Para realizar sonhos não precisa aguardar terminar o ano. Comece agora, mesmo que seja dezembro. A semana que vem será igual a esta e você terá perdido 7 dias. Se não começar logo, quando perceber a vida já passou, você já prometeu sem cumprir dezenas e dezenas de vezes durante aquela semana entre Natal e Réveillon.

Portanto, eu mudei. Eu não tenho o objetivo de fazer coisa alguma em 2018. Eu farei todas as coisas, independente se é 2018 ou 2017. Farei agora, se possível. Dane-se o ano ou momento do sucesso. O importante é que ele venha.


Feliz vida pra você!

terça-feira, 30 de maio de 2017

A passagem

De repente estava de pé.
Roupas largas, blusa de manga longa e um calçado confortável. Tudo branco. Olhou-se de cima a baixo, tentando entender onde estava e quando havia vestido aqueles trajes. Não havia qualquer tubo conectado às suas veias e nem máscara de oxigênio. Não sentia dor alguma. A sensação era de puro e completo bem-estar e energia. Aquilo despertou nele medo.
Olhou à sua volta e viu paredes rigorosamente brancas e um piso colocado no solo de forma absolutamente perfeita. O local era um corredor enorme, que aparentemente não tinha fim. A vontade de explorar o local sobrepôs qualquer tipo de pensamento, do tipo “cadê todo mundo?”. O medo se dissipou e ele se pôs a caminhar em linha reta.
Passou por duas portas, uma de cada lado do corredor largo, frente a frente. Estavam fechadas e ele seguiu. Caminhou por aproximadamente 20 metros quando começou a ouvir passos e uma voz feminina. Ele percebeu que alguns passos à frente havia um corredor perpendicular ao que estava, virando à esquerda. Quando chegou próximo dele, avistou várias pessoas vindo na direção contrária, vestindo as mesmas roupas. Elas eram guiadas por uma mulher de pele negra e cabelos cacheados. Ela também vestia branco, parou e sorriu para ele. Ainda se sentia grogue e só fez observar a linda mulher.
- Olá. Junte-se a nós. Você deve ser o Kléber. Era você que esperávamos. – Ele hesitou por um instante. Ela insistiu – não tenhas medo. Tem outras pessoas esperando por você.


Ela pôs-se a andar, com aquela multidão a seguindo. O sorriso no rosto daquelas pessoas, de diferentes etnias e trejeitos deu coragem a ele, que se juntou ao grupo. Passaram por uma porta e entraram numa sala quadrada, tão limpa e iluminada quanto o corredor que acabara de atravessar. Havia poltronas espalhadas por toda a sala e, no canto oposto à porta um homem estava de pé, esperando pela entrada de todos.
As pessoas se acomodaram todas caladas. O homem pegou uma folha e começou a ditar nomes. Nesse instante, ele entrou num devaneio e começou a relembrar o que havia se passado antes de se perceber naquele lugar. Um bip, barulho de passos e vozes de pessoas ao seu redor. De repente o negro invadiu sua mente e ele voltou ao ambiente esbranquiçado daquele lugar estranho. Mas não suficientemente estranho para ser desagradável. Pelo contrário. O ar daquele local o deixava anestesiado de bem-estar. A voz do homem no canto da sala soou mais alto e ele voltou à sua nova realidade.
- Kléber Farias. – Ele não respondeu, apenas olhou atentamente o homem, que sorriu, olhou em direção à porta e disse: - o Kléber chegou.
A roupa branca de uma segunda figura iluminou ainda mais a entrada da sala e a felicidade contagiou seu peito de forma jamais sentida.
- Vô?!
- Oi, molequinho. Venha, você está na minha lista. Vou te levar pra casa. Estava morrendo de saudades de você.


(Essa crônica é uma homenagem a Kléber Farias, irmão de uma grande amiga, Verônica Farias, que fez sua passagem após lutar bravamente contra uma doença devastadora. "Somente o justo desfruta de paz de espírito" [Epicuro])

sexta-feira, 10 de março de 2017

Alice

Existe um provérbio africano que diz: “quando morre um velho é uma biblioteca que se incendeia”.
Mais do que uma biblioteca, como um HD de grandes histórias, cultura e conhecimento de um idoso, Alice era um depósito de calma, carinho e compaixão. Fez sua passagem dormindo como um passarinho e encontrou no plano espiritual aquele que não via há quase 14 anos. Quando ele soube de sua futura chegada aparou a barba, vestiu a velha camisa marrom de botões, uma bermuda confortável, a bota preta e se perfumou. Daquela forma, a tradicional, ele esperaria sua véia, que era “tão boa, mas tão boa, que chegava num prestá”. Assim como eu e você, Pedro não queria esperar por tanto tempo, mas não teve escolha. Alice tinha de terminar o seu legado na terra dos humanos e esperar a geração posterior para deixar seus ensinamentos. Mas ele, agora, teve sua recompensa.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Relato de uma angústia

O medo

Medo é um item inevitável da nossa vida. Ele é diferente do pânico. Medo é comum e digno, porque se enfrenta com coragem. Um dos maiores medos do ser humano, sem dúvida alguma, é a perda de quem ama para a morte. Provavelmente você, leitor, já deve ter sentido esse medo algumas vezes e, quem sabe, já não chorou por causa dele?!
Quando você vê o perigo desta possibilidade na sua frente é que o medo vem, te consome e, se der tempo, te faz refletir e até mudar de atitude. O que é bom. Talvez até então você não enxergasse direito o que deveria fazer ou como ser com alguém antes que aconteça uma tragédia. Se não der tempo de consertar o erro vem outro sentimento: o arrependimento. Esse é amargo.