segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Carteado (Parte final)

Aquela era uma carta diferente das demais. Nas costas, onde haveria o arabesco azul, havia um papel com duas vezes a largura da carta, mas estava dobrado ao meio, de forma que ficasse exatamente do tamanho do Ás. Sem demora, ansioso e com pressa William abriu o papel. Nele havia um texto escrito à mão, em letra semelhante às dicas anteriores.
Parabéns por ter chegado até aqui. Se aqui está é porque merece a chave da libertação. Vá imediatamente para baixo do viaduto do chá, onde começa a calçada grande do Anhangabaú. Ali tem um portão que dá acesso a um beco e está aberto para você”. William agradeceu o atendente da biblioteca, que deu de ombros e foi em direção às prateleiras para arquivar os dois exemplares solicitados pelo visitante. Quando Krahmer colocou os pés na rua a chuva já começava, com gotas espessas e caindo lentamente. Era um aviso de uma grande tempestade que chegava. As pessoas que andavam por ali estavam apressadas. Algumas com guarda-chuvas abertos e outras se protegendo com objetos, como pastas e bolsas, todas pelo canto da calçada. William não se preocupava em se molhar, já estava úmido de suor e com a camisa amassada, não havia razão para se preocupar com tão pouco.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Carteado (Parte 4)

O padre estava perplexo. A freira continuou como uma estátua, horrorizada com a descoberta. William Krahmer permaneceu mais um instante pensativo, imaginando quando aquilo acabaria. Ele fora ali atrás de uma chave que pudesse liquidar essa brincadeira homicida. E nada encontrou além de um rei de paus, que, para ele, não significava nada naquele momento.
— Como isso veio parar na minha bíblia? —Indagou o padre, ainda em choque.
— O senhor deixou esta sala vazia em algum instante hoje? — William questionava sem muito interesse.
— Apenas pela manhã. Eu cheguei aqui após o meio dia.
— De manhã estava aberta e assim ficou por alguns minutos quando eu conversava com uma fiel no salão da igreja — acrescentou a freira.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Carteado (Parte 3)

Sem fazer barulho, William pegou a dama de copas e observou. Desta vez havia algo escrito na borda da carta ao lado do arabesco azul, às costas da dama, que observava o rapaz com serenidade, enquanto o rosto de William transparecia a dúvida e incredulidade. “Subway”, em pequena letra manuscrita com esferográfica de ponta muito fina na cor preta.
— Este psicopata está testando minha inteligência. — murmurou.
Precisava partir dali antes que fosse visto e a polícia fosse chamada. Se tivesse que dar explicações às autoridades desperdiçaria muito tempo e poderia colocar tudo a perder. Abriu lentamente a porta do depósito e ouviu passos vindos da direção da escada. Com um frio na espinha ele apoiou as costas contra a porta e esperou. Ouviu os passos atrás de si, passando pela porta onde estava e entrando na próxima, do outro lado do corredor. Abriu novamente e andou até a escada. Encostado na parede observou escada abaixo. Ninguém subia e ele partiu rápido, com passos silenciosos.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Não existe amor à primeira vista

É isso. Sem rodeios. Não existe amor à primeira vista.
Certamente uma festa a convite de amigos ou mesmo uma saidinha de balada ou barzinho são bons lugares para se gostar de alguém. É natural que um papo bem fluído, aliado a características que você enxerga como qualidades presentes neste alguém vai te ajudar a brilhar os olhos por ele ou ela. A beleza também pode te fascinar, mesmo que as ideias do outro não bata com as suas.
Desisto de pensar que você vai convidar para sair outro dia alguém que seja um chato de galocha, que se apresente como um porre em dez minutos de social. Mas alguém que você não teve oportunidade de falar em particular pode te fazer dar uma segunda chance, um segundo encontro. Acredito que já tenha acontecido com você, leitor, de sentir este súbito desejo por alguém que tenha se esquecido de pedir o telefone e não tenha mais visto. A sensação de perder uma grande chance é amarga.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Carteado (Parte 2)

Na face do valete de espadas tinha algo escrito na beirada branca. “Casa grande”. William ficou confuso, não entendeu nada. Foi até a cozinha pegou a maior faca que tinha na gaveta do gabinete, enfiou numa capa protetora e escondeu entre a calça e a camisa. Não sabia o que encontraria na busca pelo fim desta loucura. Mesmo à hora do almoço, não sentia fome alguma, o estômago se embrulhava diante da situação inimaginável a qual estava passando. “Casa grande”.
Ele pensou por alguns segundos. Ao fim da rua de sua casa tinha uma casa, o esboço de uma mansão, que havia sido abandonada por seu proprietário há dois anos, parando sua construção. Correu para lá. Teve de pular o portão, que estava trancado à corrente. Observou para ver se ninguém o observava e entrou. Lá dentro, apenas poeira tomava conta do piso de concreto e alguns materiais de construção nos cantos das paredes inacabadas. Procurou por toda a parte. Subiu para o andar de cima e nada encontrou. William teve vontade de chorar, pensava em Sara pregada à parede e na mãe, sedada e completamente presa à cama da namorada. Pensou estar sonhando, lembrou-se de sua infância, dos passeios com a mãe, da adolescência e quando conheceu Sara, no show dos Stones no Rio de Janeiro.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Carteado (Parte 1)

Aquele mês de maio era atípico na capital paulista. Fazia 32 graus às 11 horas da manhã no centro da cidade. Há alguns anos William não sentia tanto calor naquela época do ano. Mesmo sob o ar condicionado da agência de viagens onde trabalhava ele não se sentia satisfeito. A porta sempre aberta para a entrada de clientes atrapalhava a estabilização da temperatura dentro da sala. Sentia que não seria fácil aquela quinta-feira, sobretudo porque, saindo dali, ele ainda enfrentaria uma condução abastecida de calor humano e sua casa protegida apenas por um ventilador velho da mãe. “Até que não está tão ruim agora”, pensava.
William achava que aquele calor afastava os clientes. Ele dependia da porcentagem de vendas para ganhar o dinheiro suficiente para quitar as contas do mês e naquele dia a movimentação era fraca. Até àquela hora só atendera um cliente, que, segundo a aguçada impressão de William, não havia ficado muito satisfeito com o orçamento que recebeu. Ao meio dia ele sairia para o almoço. Recebeu uma mensagem de Sara: “Amor, por favor, venha até o café no horário do almoço, preciso falar com você. É importante. Te amo”. William e Sara namoravam há quase dois anos e o noivado já estava em pauta em passeios corriqueiros aos domingos. Sara trabalhava como atendente num café próximo ao trabalho de Willians, mas ela nunca havia pedido para que ele fosse até lá no almoço, mesmo por que o tempo de lanche é curto e o bom senso se fazia presente na relação.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Não quero dinheiro!

O relógio mostrava três da tarde quando Letícia recebeu o telefonema de sua mãe. Ela atendia um cliente na loja de tecidos da 25 de março, onde trabalhava, quando atendeu sem muita paciência.
— Ai filha, você não sabe. Aquele moço que te convidou para sair no final de semana veio aqui. Ele lhe trouxe flores, filha.
O que para o rapaz das flores era para ser motivo de surpresa, dona Fátima transformou em presente sem graça. Letícia até teve empatia pelo rapaz e sentiu pena pela atitude da mãe, que ela conhecia e sabia que não segurava nada em segredo por mais de dez minutos. Mas ela não tinha intenção de sair com Ricardo e ficou irrita pela interrupção em seu trabalho para falar dele.