terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Desapegue da virada, a vida é contínua

Eu mudei em 2017. Mas não mudei porque foi em 2017 ou porque meu objetivo era mudar em 2017. Não! Eu mudei naturalmente em 2017. E vou explicar o quê e porquê eu mudei.

No final de 2016 eu fiz igual a você: tracei todos os meus objetivos para o ano que entrava. Prometi que voltaria para a academia e cumpri. Prometi que voltaria a jogar bola e cumpri parcialmente, comecei e parei. Mas projetei que em março deste ano eu começaria a escrever meu livro. Parei no roteiro. Não escrevi uma linha sequer. Apenas abri este blog para a publicação dos meus contos e crônicas, que até então só eu conhecia, ficava guardado dentro do meu eu. Mas há um bom tempo eu não escrevia nada aqui. Sabe como é né?! Muito trabalho e as prioridades vão nos consumindo.

Agora, vai chegando ao final o ano de 2017. E o que eu aprendi com ele? Aprendi que não devo me apegar à mudança de ano. O que é a mudança de ano senão um gatilho que não funciona? As promessas para o ano que se inicia não passam de mentiras que massageiam nosso ego a fim de nos dar um conforto que na verdade não existe, é forçado e invisível.
Comece hoje, não deixe para janeiro – muito menos para depois do carnaval. Comece hoje, não deixe pra segunda-feira.

Porque esperar passar as festas para começar a sua dieta? Comece hoje! Porque esperar segunda-feira para começar a academia? Vá hoje, mesmo sendo quarta!!! Porque programar para dia primeiro de um determinado mês, se hoje, meio do mês, é um dia tão normal quanto o primeiro do mês seguinte?
Deixar para depois é bobagem. A virada do ano é simbólica para nós. Ela só serve de referência astronômica. Nada mais é do que uma volta da Terra ao sol. O dia primeiro de janeiro é exatamente igual a qualquer dia do mês de maio. A vida é contínua. A vida é como uma régua gigante, em que você não precisa chegar ao centímetro exato para apertar o gatilho do seu objetivo. Para realizar sonhos não precisa aguardar terminar o ano. Comece agora, mesmo que seja dezembro. A semana que vem será igual a esta e você terá perdido 7 dias. Se não começar logo, quando perceber a vida já passou, você já prometeu sem cumprir dezenas e dezenas de vezes durante aquela semana entre Natal e Réveillon.

Portanto, eu mudei. Eu não tenho o objetivo de fazer coisa alguma em 2018. Eu farei todas as coisas, independente se é 2018 ou 2017. Farei agora, se possível. Dane-se o ano ou momento do sucesso. O importante é que ele venha.


Feliz vida pra você!

terça-feira, 30 de maio de 2017

A passagem

De repente estava de pé.
Roupas largas, blusa de manga longa e um calçado confortável. Tudo branco. Olhou-se de cima a baixo, tentando entender onde estava e quando havia vestido aqueles trajes. Não havia qualquer tubo conectado às suas veias e nem máscara de oxigênio. Não sentia dor alguma. A sensação era de puro e completo bem-estar e energia. Aquilo despertou nele medo.
Olhou à sua volta e viu paredes rigorosamente brancas e um piso colocado no solo de forma absolutamente perfeita. O local era um corredor enorme, que aparentemente não tinha fim. A vontade de explorar o local sobrepôs qualquer tipo de pensamento, do tipo “cadê todo mundo?”. O medo se dissipou e ele se pôs a caminhar em linha reta.
Passou por duas portas, uma de cada lado do corredor largo, frente a frente. Estavam fechadas e ele seguiu. Caminhou por aproximadamente 20 metros quando começou a ouvir passos e uma voz feminina. Ele percebeu que alguns passos à frente havia um corredor perpendicular ao que estava, virando à esquerda. Quando chegou próximo dele, avistou várias pessoas vindo na direção contrária, vestindo as mesmas roupas. Elas eram guiadas por uma mulher de pele negra e cabelos cacheados. Ela também vestia branco, parou e sorriu para ele. Ainda se sentia grogue e só fez observar a linda mulher.
- Olá. Junte-se a nós. Você deve ser o Kléber. Era você que esperávamos. – Ele hesitou por um instante. Ela insistiu – não tenhas medo. Tem outras pessoas esperando por você.


Ela pôs-se a andar, com aquela multidão a seguindo. O sorriso no rosto daquelas pessoas, de diferentes etnias e trejeitos deu coragem a ele, que se juntou ao grupo. Passaram por uma porta e entraram numa sala quadrada, tão limpa e iluminada quanto o corredor que acabara de atravessar. Havia poltronas espalhadas por toda a sala e, no canto oposto à porta um homem estava de pé, esperando pela entrada de todos.
As pessoas se acomodaram todas caladas. O homem pegou uma folha e começou a ditar nomes. Nesse instante, ele entrou num devaneio e começou a relembrar o que havia se passado antes de se perceber naquele lugar. Um bip, barulho de passos e vozes de pessoas ao seu redor. De repente o negro invadiu sua mente e ele voltou ao ambiente esbranquiçado daquele lugar estranho. Mas não suficientemente estranho para ser desagradável. Pelo contrário. O ar daquele local o deixava anestesiado de bem-estar. A voz do homem no canto da sala soou mais alto e ele voltou à sua nova realidade.
- Kléber Farias. – Ele não respondeu, apenas olhou atentamente o homem, que sorriu, olhou em direção à porta e disse: - o Kléber chegou.
A roupa branca de uma segunda figura iluminou ainda mais a entrada da sala e a felicidade contagiou seu peito de forma jamais sentida.
- Vô?!
- Oi, molequinho. Venha, você está na minha lista. Vou te levar pra casa. Estava morrendo de saudades de você.


(Essa crônica é uma homenagem a Kléber Farias, irmão de uma grande amiga, Verônica Farias, que fez sua passagem após lutar bravamente contra uma doença devastadora. "Somente o justo desfruta de paz de espírito" [Epicuro])

sexta-feira, 10 de março de 2017

Alice

Existe um provérbio africano que diz: “quando morre um velho é uma biblioteca que se incendeia”.
Mais do que uma biblioteca, como um HD de grandes histórias, cultura e conhecimento de um idoso, Alice era um depósito de calma, carinho e compaixão. Fez sua passagem dormindo como um passarinho e encontrou no plano espiritual aquele que não via há quase 14 anos. Quando ele soube de sua futura chegada aparou a barba, vestiu a velha camisa marrom de botões, uma bermuda confortável, a bota preta e se perfumou. Daquela forma, a tradicional, ele esperaria sua véia, que era “tão boa, mas tão boa, que chegava num prestá”. Assim como eu e você, Pedro não queria esperar por tanto tempo, mas não teve escolha. Alice tinha de terminar o seu legado na terra dos humanos e esperar a geração posterior para deixar seus ensinamentos. Mas ele, agora, teve sua recompensa.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Relato de uma angústia

O medo

Medo é um item inevitável da nossa vida. Ele é diferente do pânico. Medo é comum e digno, porque se enfrenta com coragem. Um dos maiores medos do ser humano, sem dúvida alguma, é a perda de quem ama para a morte. Provavelmente você, leitor, já deve ter sentido esse medo algumas vezes e, quem sabe, já não chorou por causa dele?!
Quando você vê o perigo desta possibilidade na sua frente é que o medo vem, te consome e, se der tempo, te faz refletir e até mudar de atitude. O que é bom. Talvez até então você não enxergasse direito o que deveria fazer ou como ser com alguém antes que aconteça uma tragédia. Se não der tempo de consertar o erro vem outro sentimento: o arrependimento. Esse é amargo.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Carteado (Parte final)

Aquela era uma carta diferente das demais. Nas costas, onde haveria o arabesco azul, havia um papel com duas vezes a largura da carta, mas estava dobrado ao meio, de forma que ficasse exatamente do tamanho do Ás. Sem demora, ansioso e com pressa William abriu o papel. Nele havia um texto escrito à mão, em letra semelhante às dicas anteriores.
Parabéns por ter chegado até aqui. Se aqui está é porque merece a chave da libertação. Vá imediatamente para baixo do viaduto do chá, onde começa a calçada grande do Anhangabaú. Ali tem um portão que dá acesso a um beco e está aberto para você”. William agradeceu o atendente da biblioteca, que deu de ombros e foi em direção às prateleiras para arquivar os dois exemplares solicitados pelo visitante. Quando Krahmer colocou os pés na rua a chuva já começava, com gotas espessas e caindo lentamente. Era um aviso de uma grande tempestade que chegava. As pessoas que andavam por ali estavam apressadas. Algumas com guarda-chuvas abertos e outras se protegendo com objetos, como pastas e bolsas, todas pelo canto da calçada. William não se preocupava em se molhar, já estava úmido de suor e com a camisa amassada, não havia razão para se preocupar com tão pouco.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Carteado (Parte 4)

O padre estava perplexo. A freira continuou como uma estátua, horrorizada com a descoberta. William Krahmer permaneceu mais um instante pensativo, imaginando quando aquilo acabaria. Ele fora ali atrás de uma chave que pudesse liquidar essa brincadeira homicida. E nada encontrou além de um rei de paus, que, para ele, não significava nada naquele momento.
— Como isso veio parar na minha bíblia? —Indagou o padre, ainda em choque.
— O senhor deixou esta sala vazia em algum instante hoje? — William questionava sem muito interesse.
— Apenas pela manhã. Eu cheguei aqui após o meio dia.
— De manhã estava aberta e assim ficou por alguns minutos quando eu conversava com uma fiel no salão da igreja — acrescentou a freira.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Carteado (Parte 3)

Sem fazer barulho, William pegou a dama de copas e observou. Desta vez havia algo escrito na borda da carta ao lado do arabesco azul, às costas da dama, que observava o rapaz com serenidade, enquanto o rosto de William transparecia a dúvida e incredulidade. “Subway”, em pequena letra manuscrita com esferográfica de ponta muito fina na cor preta.
— Este psicopata está testando minha inteligência. — murmurou.
Precisava partir dali antes que fosse visto e a polícia fosse chamada. Se tivesse que dar explicações às autoridades desperdiçaria muito tempo e poderia colocar tudo a perder. Abriu lentamente a porta do depósito e ouviu passos vindos da direção da escada. Com um frio na espinha ele apoiou as costas contra a porta e esperou. Ouviu os passos atrás de si, passando pela porta onde estava e entrando na próxima, do outro lado do corredor. Abriu novamente e andou até a escada. Encostado na parede observou escada abaixo. Ninguém subia e ele partiu rápido, com passos silenciosos.