quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Só eu que pego as coisas!

Em casa, no período de férias da esposa, a rotina tem formato diferente do comum. Quando eu chego do trabalho, no começo da noite, ela já está preparando o jantar, enquanto assiste às suas séries preferidas pelo celular. A primeira ação é um banho e o alívio de uma roupa limpa e o conforto do lar.
Em pouco tempo o jantar é servido por ela, geralmente cada dia com um cardápio diferente e um prato bem montado, o que me deixa sempre feliz e interessado na sua dedicação em fazer desenhos com o arroz e outras graças. Ela se junta a mim e a partir deste momento eu começo a trabalhar. É sério. Porque só eu que pego as coisas!
Acabamos a refeição e eu retiro as pequenas mesinhas que apoiamos os pratos. Levo até a cozinha e geralmente volto com um palito, que é um hábito. Quando me preparo para sentar e voltar a ver TV, vem o pedido.
           − Amooooor, pega o controle e aumenta o volume?!
Depois, eu preciso PEGAR a sobremesa e na volta PEGAR a Kenny na gaiola para bagunçar na cama. Quando terminamos a sobremesa eu tenho que PEGAR as tacinhas e levar até a cozinha. Mal me deito novamente e o computador, ligado à TV através de um cabo HDMI, pede para que avise a ele se dormimos ou se queremos continuar assistindo (?) e adivinha quem tem de ir até lá?!
− Ohh amô, vai lá clicar em “continuar assistindoooo”.
− Poxa amor, de novo eu? Só eu que pego as coisas!!!
          Ao final de mais uma noite agradável vendo séries ou filmes, chega aquela hora de desligar o computador e apagar a luz. Ela faz manha, finge choro, me dá beijinhos...tudo para que eu mais uma vez “pegue as coisas”. Desligo o computador, PEGO o cobertor, apago a luz e me deito. Ela deita em meu peito e adormecemos.
Eu não ia lhes contar nada disso e é claro que não é uma reclamação da minha vida amorosa, que vai muito bem, obrigado! Mas ela pegou (viva, ela pegou!!!) meu bloco de notas e me pediu formalmente para que escrevesse. E eu escrevi né?! Porque só eu que escrevo as coisas!

A dor do erro e o efeito da saudade

Sevilha, Espanha. 27 de Julho de 2007. A cidade ainda acordava quando Margarita saía para trabalhar, de uma casa na qual tinha saudades, mas que não tinha intenção de voltar. Voltou. Sua condução era um ônibus e seu caminho não era longo. A chegada ao restaurante Ravier, onde agora trabalhava como garçonete, fez Margarita refletir sobre o que lhe havia acontecido há duas semanas.

Huelva, Espanha. 15 de Junho de 2007. Pablo era consultor de vendas e trabalhava em uma concessionária de carros no centro da cidade. Enquanto isso, Margarita se atarefava em fazer o café e o jantar em um restaurante francês na zona sul de Cádiz; trabalhava no período da tarde, estendendo até o final da noite. No dia anterior àquele, a jovem de cabelos negros e longos em um corpo muito admirado pelos rapazes da região, notou apreensão em seu noivo. Pablo acordou agitado e com o rosto fechado, Margarita não o via assim desde a época de finais do campeonato de rugby, na qual Pablo participava antes do noivado.
Pablo fez questão de atender àquela cliente, conversaram durante um tempo e saíram no carro dele. Era estranho ver o carro de Pablo parado em frente a sua casa naquela hora do dia. Sem que ninguém percebesse, adentrou sua casa junto a uma mulher de vestido preto e cabelo encaracolado. A casa tinha o perfume de Margarita, mas naquele momento Pablo não tinha olfato.
- Esta será a ultima vez, Pablo.
Pablo sempre confiou em Carlota desde que começaram a sair; mas ela o traiu. No final de tudo, Carlota, propositalmente, deixou cair no banheiro uma de suas vestimentas, a mais baixa. E saíram.
Margarita sempre chegava mais cedo. Mas naquele dia, quando Pablo ultrapassou a porta de entrada só encontrou silêncio. A ausência das roupas de Margarita no guarda-roupa o fez decifrar o que estava acontecendo ali. Neste momento, passaram pela cabeça de Pablo todas as aventuras passadas ao lado dela: viagem à Alemanha, piquenique no parque de Córdoba, o passeio na praia, os jogos de rugby. E ele pôde sentir o gosto do arrependimento e aquela sensação de dor no peito.
Àquela altura, Margarita já estaria de volta à casa de seus pais, em Sevilha, pensando no porquê estaria acontecendo algo tão inimaginável até então. Naquela noite, ele se deitou, sem ao menos tentar explicar-se; já sabia o culpado. Apenas tentou dormir, em vão. Ao nascer do sol, Pablo levantou-se e, sem rumo, caminhou pela cidade vazia. Chegando à praia, ele pôde reparar nos passos na areia molhada, e isso lhe fez sentir o que jamais havia sentido por Margarita. A saudade.

Sevilha, Espanha. Abril de 2009. Margarita casa-se com Esteban e já espera aquele que será seu primeiro niño, o sonho de sua vida. Estuda direito e pretende ser delegada; Esteban é proprietário de uma construtora civil.

Huelva, Espanha. Maio de 2010. Pablo Pedrosa Martins se suicida na ponte de pesca do Mar Mediterrâneo, depois de escrever, com pegadas na areia, um nome feminino, que a polícia busca significado.

(Este conto é uma republicação. Foi o primeiro texto publicado neste blog, em agosto de 2010)

domingo, 20 de abril de 2014

Mais um mito...

Se eu pudesse bater um papo com Deus, face a face, começaria pedindo para que Ele não levasse mais os gênios. O mundo precisa deles.
Há uma semana, a dramaturgia perdeu José Wilker. Há três dias, a literatura perdeu Gabriel Garcia Márquez. E neste sábado, o jornalismo esportivo perde um dos maiores narradores da história. Foi-se Luciano do Valle. Contou-nos a trama de diversos títulos do Corinthians com a categoria de um craque. Com uma voz marcante e os bordões inconfundíveis, Luciano do Valle fez história dirigindo grandes equipes na Globo, na Record e na Band.
Foi Luciano quem lançou Maguila no boxe, exaltou o vôlei e o basquete, fazendo com que essas modalidades viessem à visão do brasileiro, com a importância que tinha o automobilismo, onde narrou muitas vitórias de Piquet. Na Indy, deu um passe para Teo José dominar as telas da Band nas pistas.
O gol de Tupãzinho na voz de Luciano nos faz lembrar com emoção o primeiro título brasileiro, que ele fez questão de exaltar, com o tamanho do Corinthians e maestria incalculável ao final da partida. Assim como fez em 2000, no nosso primeiro título mundial. Campeão do Mundo, por um campeão da locução esportiva.
Perdemos no rádio Osmar Santos (graças a Deus ainda vivo). Perdemos no mundo Fiori Gigliotti e agora não temos mais Luciano do Valle. Mas temos agora um mito que será eternamente lembrado pelos gratos narradores que hoje iniciam carreira e veem em ti, Luciano, um espelho.
Como você mesmo disse durante narração do primeiro gol de Ronaldo com o manto alvinegro, Deus existe. E você agora descansa ao lado dele, ídolo Luciano!

domingo, 26 de janeiro de 2014

Da Guerra

Em primeiro lugar, creio que a organização humana existiu desde os primórdios, mesmo que de maneiras bem diferentes do que entendemos hoje. Desde os primeiros tempos, seres humanos frearam seus instintos de agressividade e libertinagem ao perceberem, por si próprios, a impraticabilidade de um estado de coisas dominado pelo caos e liberdade absoluta (algo de Hobbes aqui?). O sistema de crenças e religiões será um dos primeiros filtros à ação ‘’anárquica’’ do comportamento dos primeiros seres humanos. A lenta organização interna da Humanidade, de seus valores e comportamentos, sistemas e culturas, é algo fascinante. Estamos falando talvez do cerne do termo História.
Sobre a questão da interação de seres humanos que gera disputa há de se fazer alguns parênteses. Seres humanos lutam tanto pela necessidade quanto pelo luxo. Tanto pelo trabalho quanto pela comodidade. Está aí o capitalismo que não nos deixa mentir. O ser humano tem em si a necessidade de facilitar sua vida.
E é aqui que entra a tríade Disputa – Combate – Guerra. A disputa por satisfação de desejos abstratos ou pela efetiva satisfação de desejos fisiológicos faz parte da primeiríssima experiência humana, tanto no âmbito mítico (o conflito entre Deus e o Homem por conta do pecado) quanto no âmbito puramente material. Brigas por comida (fisiológico) ou pela simples manutenção da posse de dado grupo de fêmeas com quem o leão quer acasalar (fisiológico) ou a guerra por controle de jazidas petrolíferas no Oriente Médio.
Porém, aqui se deve atentar aos termos.
O problema começa quando se cai na introdução de um raciocínio que atribua exclusivamente, ou ao menos em grande medida, à economia a causa de Guerra. Mais: falar em dinheiro é ainda mais complicado. Se há grande predomínio de questões econômicas na Guerra atual, isso se dá pela cada vez mais intrínseca e normal relação entre política e economia (se levarmos em conta o raciocínio clausewitziano que atribui a Guerra à esfera exclusivamente política, no que não concordo, tendo a considera-la um fim em si de análise sócio político histórica). O dinheiro revoluciona a Guerra, mas não tira dela sua essência, que é parte da essência humana. Há linhas e linhas do estudo de polemologia e História militar que atribuem causas e origens ao ímpeto pela Guerra. Prefiro ficar com a mistura. Guerra é instinto Humano (pode-se tirar do ser humano o dinheiro, o poder, a economia, a política e etc. e ainda assim haverá guerra) ao mesmo tempo em que é também uma invenção humana. É a materialização da natureza humana posta num sistema de regras e comportamentos a que chamamos Guerra.
A atitude humana frente à Guerra pode ser analisada de muitas maneiras. O que você fez foi analisar de uma maneira positiva, até utópica, dando valor ao discurso de que o caminho é sempre a paz. No entanto há problemas nessa compreensão. Até em Affonso Romano de Sant’ana vemos que Guerra e Paz são margens de um mesmo rio, não caminhos contrários. São complementares. São Oroboro.
Sobre o combustível da Guerra, há de se dizer certo o que vários autores já constataram: A bestialidade humana, de todos nós. O homem bom e tranquilo Joseph se transforma no maníaco Goebbels que vai cuidar da propaganda nazista e, no fim de tudo, matará toda a família. O bom trabalhador hutu ruandês que beija a esposa na testa antes de ir trabalhar, é o mesmo que vai trucidar um bebê tutsi com um facão. Não se vê aqui qualquer necessidade econômica.
O dinheiro defina como uma guerra será travada, com que meios, mas não define a guerra em si, sua natureza, sua bestialidade intrínseca.
Sobre diferenças: Carrego comigo um grande peso quando penso nisso. Acho igualmente tirânico o pensamento de que se deve, a despeito de tudo, aceitar as diferenças de todos com passividade total acordo. A diferença move o humano, um em direção ao outro ou na direção contrária. Os dois movimentos são legítimos. Há que se aceitar a diferença! Mesmo? Será? Será que o simples fato de não aceitar a diferença seja, por si só, um motor para o progresso humano? A homogeneização do diferente na comunidade que o aceita passivamente não destrói a própria diferença? O distanciamento dos diferentes não pode produzir algo de útil ou bom? Ao menos a originalidade do diferente?
Sobre julgar, é não só natural como desejável e fundamental para a vivência individual ou grupal. Julgar é atribuir valor e não há vida possível sem a atribuição de valor. O julgamento de que isto é bom e isto é mau é o que nos mantém vivos.
(Bruno Izaías da Silva - É Licenciado em historia pela universidade

do vale do sapucaí - especializando em historia militar pela 
universidade do sul de santa catarina e ighmb)



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A Guerra

Imagino eu que o começo da civilização tenha sido uma bagunça. Quando falo “bagunça”, entenda-se como desordem em relação ao que temos hoje (não que hoje haja uma ordem ideal de sociedade, muito menos o melhor modelo). Penso: seres humanos se conhecendo, conhecendo matéria e formas de vida. Línguas, símbolos, escritas...um mundo de formas na tentativa de comunicação.

Mas como um mundo com terras sem dono, houve disputa. Disputa por espaço, por um canto para estacionar a família ou até mesmo o bando.

Bando: grupo de pessoas vinculadas. Quantidade de pessoas ou animais. Ajuntamento desorganizado de pessoas.

Sim, as pessoas já viveram em bandos, distintos e distantes, que lutavam por uma caverna. Comiam o que tinham. E tinha muito. Frutas, verduras, animais. A sobrevivência era na raça, não tinha enlatados e nem fast food.

Agora vamos voltar os olhos aos tempos atuais. As linguagens se aperfeiçoaram. As falas, os símbolos, as figuras, a escrita. Está tudo mais bonito e organizado. Mas continuamos em bando. O bando de antes nada mais é do que a sociedade de hoje difundida. O número de pessoas cresceu, a quantidade de terras se fez menor e a vivência ficou difícil.

Difícil não por causa da briga pelas terras, mas pela diferença das pessoas. O tipo de criação que obteve cada uma delas, a crença, os gostos pessoais e as ideias. A disputa mudou de rumo e de razão. E não há razão! As terras já não são mais problema. O espaço agora é dividido por uma coisa que criaram, chamada justiça. Formaram-se as leis para a organização e orientação da sociedade, a fim de evitar conflitos. Respeitam-se as leis, faça-se a justiça, ou será punido.

Até parece que as coisas estão no rumo certo para uma sociedade utópica. Mas existe uma nova ferramenta capaz de mudar tudo. Absolutamente tudo. Qualquer coisa que se possa imaginar. Ninguém mais planta ou cria animais para o consumo. Inventaram o DINHEIRO. E é justamente aí que começa a GUERRA. Calma, não pense que eu estou aqui de forma a desvalorizar a criação da moeda ou mesmo apoiando o comunismo e destruindo em forma de palavras o capitalismo.

O intuito deste texto é fazer o leitor refletir em detalhes o pensamento retrógado e inadmissível de quem explode bombas, a própria decisão do ser humano. Sua capacidade de tomar uma atitude que afeta o outro e o gosto por isso. De forma aberta, como quem vê tudo de longe e não se envolve em nada. O dinheiro tudo compra. Por isso é a coisa mais cobiçada da sociedade. E é aí que mora o perigo.

Voltemos ao começo da humanidade e lembramos que havia uma briga por terras, por um espaço para se alojar. Este conflito existe ainda hoje, mas por espaço para se explorar. Pelos minérios, as riquezas de cada lugar, que trás a quem tem esta riqueza o...dinheiro, que é transformado em mais riqueza e status, que é o ápice. Para consegui-lo, administradores de nações (sejam eles presidentes, reis, ministros ou outros) invadem terras que não lhes pertencem perante a lei (aquela que os próprios criaram). Dividiram-se os espaços em blocos e agora o sujeito que manda no bloco A quer invadir o bloco B, usando homens que muitas vezes não concordam com a própria ação que executa.

A guerra é o começo do fim picada. E o dinheiro é o combustível, o responsável. A vontade pelo poder (ego, vaidade) vem logo em seguida, alimentando o calor da violência contra terceiros. Desta forma, a nova sociedade, intelectual, criadora, tecnológica, volta aos moldes do início da civilização, mas com novas armas, poderosas como eles querem ser. Criaram-se as pistolas, os canhões, as bombas. O objetivo é destruir alguém, alguém como ele mesmo, por busca de riqueza. Mas há também uma guerra mais nojenta, fútil e sem razão, mas que devasta tanto quanto a outra. Ou pior, porque mexe não só com o que podemos tocar, o físico, mas a moral, os costumes, as crenças. E são esses itens a razão da própria guerra (sim, olha onde chegamos). Lá no meio do texto destaquei que o atual problema da humanidade é justamente as diferenças. E chegamos ao ponto de as diferenças serem problema. A religião.

Religião: “Religião vem do latim ¨religare¨, tem o siginificado de religação. Essa religação se refere entre uma nova ligação entre o homem e Deus”.

Pode até ser inacreditável, mas as pessoas fazem guerra por causa da religião. Não só a guerra com bombas e armas pesadas, mas a guerra entre um individuo e outro. Há uma disputa, uma briga de valores entre crenças, entre o que se acredita ou não. Fé é algo que alguns tem e outros não. Os que tem não precisam julgar os que não tem e vice e versa. Basta levar a sua vida da forma como acha que deve. Qual a dificuldade do ser humano em entender isso? Qual a dificuldade do individuo em entender que o seu modo de vida não é, necessariamente, o ideal? Cada um tem o seu jeito ideal de convivência, a sua verdade e as suas vontades. Eu não posso julgar um ser humano com base no time que torce, religião que segue, música que gosta etc. Mas julga-se! Isso é a GUERRA.

O texto pode parecer confuso. Ou você pode estar pensando que eu sou um louco. Mas aposto que ele instiga para uma reflexão sobre a guerra com detalhe. Sobre o que é, porque existe e a ignorância que é uma guerra, um conflito entre seres iguais. Isso é uma chamada. Reflita conforme a sua opinião e tire conclusões. Afinal, a opinião tem poder!

sábado, 17 de agosto de 2013

A opinião existe

       Vivemos um momento social em que as pessoas estão começando a interpretar as coisas como devem, separando o que lhes dizem do que pensam. A opinião e as ideias pessoais são características imprescindíveis de um ser minimamente pensante. E por mais que pare de escrever por quase um ano sobre assuntos diversos, relevantes ou nem tanto, a opinião é um relógio...ela existe e não para!

A opinião tem poder. Opine, reflita, imponha-se!

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A influência norte americana no Golpe Militar de 1964

            Quando se fala em golpe de estado vem imediatamente à cabeça uma briga política dos grandes, dos presidentes. Quando se fala em golpe de estado no Brasil, em 1964, a primeira coisa que pensamos é no presidente e nos militares, sem mesmo saber como tudo começou, por quem começou e quem foram os militares. A palavra Ditadura é conhecida por todos no Brasil, mas pouca gente já pronunciou o nome de Lincoln Gordon, nem tampouco sabe quem foi.

Em meio o interesse que o Brasil tinha no Brasil na metade do século XX, Lincoln Gordon articulou algumas medidas para que os EUA não perdessem com qualquer ameaça comunista no Brasil, visto que problema parecido havia acontecido em Cuba, tempos antes. Ele era embaixador dos EUA no país, e trabalhou bastante para a derrubada de João Goulart – que agora passaremos a chamar de Jango –, fazendo o intermédio entre militares e o presidente vigente no poder americano.

Em 1962, os Estados Unidos, bem ativos no Brasil, começaram a temer as atitudes de Jango, suas medidas e vontades, sob forte suspeita de que ele estaria implantando no país um sistema comunista ditatorial. Neste momento, os EUA estavam sob domínio do presidente John Kennedy, que tinha um “amigo mensageiro” no Brasil: o embaixador Lincoln Gordon. Toda e qualquer informação que Gordon obtia sobre as ações de Jango, eram passadas para Kennedy, juntamente com um conselho de Gordon, que tinha toda a confiança do presidente.

A todo o momento Kennedy e Gordon insistiam em dizer que não gostariam de uma nova Cuba na América Latina. Derrubar Jango do poder era a única forma de manter em alta o sistema capitalista implantando pelos EUA. Goulart fazia diversos comícios e aparições prometendo reforma agrária e defendia o voto direto. Com isso, conseguiu conquistar a confiança do povo e levava consigo o apoio da maioria. Porém, os opositores de Jango viam nele uma vontade de se tornar um ditador e temiam que ele não convocasse as eleições de 65. Foi então que os EUA, a partir de Lincoln Gordon – mas com uma leve contrariedade do presidente Kennedy no começo –, começaram a mandar dinheiro para que os opositores, liderados por Carlos Lacerda – governador da Guanabara – e Adhemar de Barros – governador de São Paulo –, fizessem campanha para as eleições e mostrassem ao povo a visão deles sobre o governo Jango. Esta ação foi executada através do IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais).  Neste momento os EUA começaram a agir diretamente para que ocorresse, dois anos depois, o golpe.

É claro que, ingenuamente, o povo que andava junto a Jango não percebia a ação dos EUA de Gordon nas entrelinhas para derrubá-lo. Em meio a execução deste trabalho pelo país norte americano, o presidente John Kennedy é assassinado e dá lugar a Lyndon Johnson. E para quem achou que este faria algo para impedir a operação do golpe, se engana. Johnson fez tanto quanto Kennedy e mais: colocou a força naval norte americana nas nos portos brasileiros. Mas isso vem depois. Em março de 1964, Jango convocou um comício que reuniu milhares de pessoas em frente à Central do Brasil. Com tanques de guerra por toda a parte e cartazes referentes à reforma tão esperada pelos sem terra, os militares começaram a se convencer de que Jango realmente queria implantar no país um regime autoritário. Foi então que as forças militares se voltaram contra Jango e se uniu de uma vez por todas a Gordon e Johnson.

Foi nesta ocasião que Gordon decide pedir para que Johnson colocasse as forças armadas navais nas fronteiras brasileiras, pois teria uma revolta militar contra o governo Jango para derrubá-lo. Gordon, inclusive, deixa claro para o presidente americano que o conflito seria “longo e sangrento”. Porém, ele não imaginava a reação pacífica do povo brasileiro ao ver os militares dominarem o poder. Johnson refletiu sobre a legalidade do que aconteceria em breve no Brasil, mas Lincoln Gordon conseguiu convencê-lo, como fazia com Kennedy, e as forças navais dos EUA com navios petroleiros e porta-aviões cercaram o porto de Santos para abrir fogo caso precisasse – a chamada Operação Brother Sam. Não precisou.

Jango, percebendo o golpe, tomou uma atitude pouco imaginada por pessoas que o apoiavam. Todos esperavam uma reação do presidente quanto ao que estava acontecendo. O exercito brasileiro estava nas ruas, confusão generalizada, repressão. Ante isso, João Goulart vai para Brasília e depois para o Rio Grande do Sul. Lá, além do apoio do Governador Leonel Brizola, Jango tinha exílio. Paralelamente a isto, no dia 1 de abril, Auro de Moura Andrade declara vaga à presidência da república. Neste momento, seguindo a constituição, assume o poder Ranieri Mazzili, presidente da câmara dos deputados, acusando Jango de abandono do poder. Sem imaginar que seria tão fácil, as tropas americanas se retiraram das fronteiras brasileiras. Jango, traído pelos militares, fugiu para o Uruguai para não ser morto. Em 15 de abril, Marechal Castelo Branco – que sempre fez o intermédio entre o esquema do golpe e os americanos – assumiu a presidência da república. E, pouco adiante, Castelo Branco tentaria um novo golpe para não sair mais do poder. Porém, é substituído por Costa e Silva em 1967.

Até hoje, algumas pessoas ligadas ao governo Jango não concordam com o fato de ele não ter reagido ao golpe, mas compreendem a vontade do presidente em não querer ver derramamento de sangue, pois se reagisse, sofreria intervenção dos EUA e começaria uma verdadeira guerra civil no Brasil. Mas na tentativa de livrar o seu povo do sangue, não conseguiu livrá-los da repressão e da prisão – para aqueles que não concordavam com o regime militar. A ditadura militar só foi sanada completamente em 1985, quando um novo presidente civil foi eleito: Tancredo Neves. E, até hoje, poucos sabem quem foi Lincoln Gordon e quase ninguém sabe a dor que ele causou a milhões de pessoas no Brasil.

Este é um trabalho universitário realizado sob orientação do professor e cientista político Edson Rildo.
Referências:

TAVARES, Flávio. O dia que durou 21 anos. Brasil: Pequi Filmes, 2011. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=5TlYAKTRQ_8>

TENDLER, Sylvio. Jango. Brasil: Caliban Filmes, 1984.