sábado, 2 de junho de 2018

Surpresa



Há alguns dias Letícia sentia uma diferença no comportamento de Roberto. A casa que eles pensavam em reformar ainda estava do jeito que fora construída. Nada havia sido mexido, por mais que Letícia tentasse furar a barreira espessa dos desvios de conversa do marido. Notava um distanciamento incomum dele para com ela.

- Roberto, e a nossa reforma? Não vamos mais falar sobre isso? – ela tentou.

- Calma, Let. Depois a gente vê. Você sabe que ando atribulado de trabalho.

- Mas nós não falamos nesse assunto há semanas.

- Prometo que em breve a gente volta a tratar disso, ok? – Ele se levantou, deu um beijo na testa da esposa e subiu para o quarto.

Letícia chorava em silêncio. Ela tinha no escritório onde o marido trabalhava uma amiga que ele não sabia. A secretária do gerente de finanças era sua aliada e ela havia pedido para que a moça o observasse. Desconfiava que poderia estar entrando em cena uma terceira figura que pudesse atrapalhar seu matrimônio. Mas Vera, sua aliada, nada havia notado nada de diferente nas ações de Roberto. Na última ligação, Vera tranquilizou Letícia.

- Amiga, não tem nada. Ele continua na sua rotina normal. Já fui até almoçar no mesmo restaurante sem que ele percebesse e não vi nada de estranho. Ele continua almoçando com o Miguel e o Carlos. E quando sai daqui vai direto para casa – confirmou.

- É, ele tem chegado no horário normal. Exceto por segunda-feira, que chegou um pouco mais tarde e disse que era porque demorou a terminar o relatório.

- Que relatório? – Indagou vera.

- Eu não sei, não faço ideia de suas atividades. Só disse que atrasou um relatório importante e por isso ficou um pouco mais. – O silêncio de Vera do outro lado da linha colocou uma dúvida ainda maior na cabeça de Letícia.

- É...talvez. Bom, preciso desligar, ainda tenho de preparar o jantar. – Finalizaram a ligação.
Letícia passou a noite pensando no diálogo que tivera com Vera e desde então não conseguiu dormir direito. Depois de tanto refletir, tomou uma decisão.

Naquele dia ela resolveu tentar pegar Roberto em flagrante na sua saída do trabalho. Vestiu-se com uma roupa que não costumava usar e saiu no horário do final do expediente do marido. Estacionou o carro na avenida perpendicular de onde Roberto deixava o seu.

Não demorou muito e ele saiu do prédio. Parecia apressado e preocupado com quem andava à sua volta. Entrou no carro e saiu. Letícia o seguiu a uma distância segura e sentiu um gelo na espinha quando ele virou à direita, numa direção que não era a de sua casa. Andou duas quadras e estacionou. Saiu do carro com uma maleta, atravessou a rua e entrou num café. Letícia respirou fundo, fechou os olhos, abriu-os depois de alguns segundos e deixou o carro.

Foi até a porta do café e, sem entrar, olhou para ver onde estava Roberto. Ele se encontrava no canto oposto à porta, encostado no vidro lateral do ambiente, de lado para onde estava Letícia. Na sua frente uma moça, bem vestida, de cabelo escuro e liso. Ela sorria para ele e ele devolvia o gesto. Letícia não sentia o chão sob seus pés. A única ação que pôde fazer, sem perceber, foi pegar seu carro, ir até a casa, organizar tudo que poderia levar e sair. Sua intenção era nunca mais ver a figura de seu marido na sua frente. Ela não precisava ver mais nada.


O cerco estava se fechando. Roberto já notava na mulher uma inquietação e ela o questionava demais nos últimos dias. Ele já tinha certeza que suas atitudes haviam mudado sem que percebesse apenas pelas ações de Letícia. Não sabia mais como esconder aquele segredo da mulher. Teve de acelerar o processo e marcou um encontro por telefone.

- Pode ir amanhã? Por favor, eu preciso falar com você. A Letícia tá no meu pé, acho que está desconfiada. Ok, então amanhã após meu expediente, ali no café da quarta avenida. Obrigado. Beijo. – encerrou a ligação, enquanto Letícia estava no banho.

No outro dia, ao final do expediente, Roberto saiu. Pegou seu carro e foi até o café, onde havia marcado o encontro. Quando chegou, ela já estava lá, sentada numa mesa ao fundo.
Ele se sentou, pediu uma bebida e se pôs ansioso. A arquiteta era uma indicação de confiança, ele tinha certeza que naquela conversa começaria a realização de um sonho e a reforma de sua casa ficaria do jeito que a esposa queria. “Letícia vai amar”.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Reflexões


Depois que chegamos à ilha, eu tomei um banho de mar para aquela tradicional lavada na alma com sal. O sal parece que limpa nossos sentidos, deixa para trás algumas coisas que talvez nos incomode. Entre o som do mar e de algumas conversas que me pareciam estranhas, eu ouvia notas musicais vindas do nada, eu não tinha fone nos ouvidos. Apenas sentia o quente do sol e o áspero da areia.

Mas onde me achei foi na rocha. Localizada no canto, alguns palmos abaixo do nível da água com a maré baixa. Dali eu me aproximei e eu me sentei. Apoiei meus pés e abracei as pernas. Naquele momento, naquele pequeno momento de apenas alguns minutos, eu me senti verdadeiramente bem. Parecia que tinha capacidade de, se quiser, voar. Aquela brisa boa batendo no rosto, os olhos fechados. Foi nesse momento que eu desejei em meus devaneios jamais sair dali. Mas o barco chegou.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

A música é o combustível do imaginário


Acredito que com esse título até seria dispensável qualquer texto. Diretamente é isso: a música é o combustível do imaginário. Mas como é gostoso imaginar coisas, viver dentro de si fantasias que no mundo real muitas vezes são até impossíveis. Melhor é quando o fato é palpável. Mas se for um desejo, aproveite a música para viver hoje o que você deverá fazer amanhã.

Ouvir um som enquanto não está fazendo nada é como começar a escrever numa página em branco dentro do cérebro. Você escreve ou desenha lá tudo que aquele som lhe trás de bom. Foi isso que me incentivou a ouvir rap. E também o samba, que hoje faz parte da minha rotina. A música nacional é um combustível rico. Se a música fosse como a gasolina, a música nacional seria a gasolina aditivada da imaginação.

A reflexão musical se estabelece quando a sua cabeça está vazia para a letra da canção penetrar e moldar uma ideia, desenhar um cenário ou mesmo te levar para um lugar que jamais esteve através da criatividade. Aliás, a criatividade do compositor aguça a sua, que por vezes nem tem relação com a que ele teve quando escreveu. Que loucura é a música. O que seria do homem sem a música? Que vida triste teríamos sem a arte musical que nos enriquece de conhecimento e êxtase.

Música boa é aquela que te ativa os sentidos. A que toca o coração. É como a bebida. Bebida boa é aquela que agrada o seu paladar. A música boa é a que agrada seus ouvidos e coloca o seu cérebro para funcionar do ócio. Se você, como eu, é movido à música, utilize-a o tempo que puder. Ela é a arte mais extraordinária inventada pelo homem.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

O rodeio da vida


A verdade é que não é o que você acha. Você pensa que tem o controle, não é? Mas não tem. A verdade é que muitas vezes você não é o que pensa que é, não faz o que pensa que faz e nem passa a mensagem que acha que passa. A verdade é que há uma confusão natural na sua cabeça que você não sabe identificar. Você pode discordar, mas tem coisa que as pessoas sabem de você que nem mesmo você sabe. É aquela coisa do costume de ser quem acha que é, mas não é, saca?! A real é que é difícil se interpretar. Você toma suas decisões e nem sabe as enxerga da forma como ela são.

Esse mundinho aqui não é fácil de entender, irmão. Quando você acha que vai dar o bote nele, ele te liquida na base do soco. Mas nem sempre assim. Às vezes você pensa em dar um soco no mundinho e ele te acaricia, te dá um travesseiro, te coloca no trilho, abre teu olho e você desiste. A vida quando parece azeda, adoça. E quando você acha que está doce, ela amarga. Não é louco isso?! Mas ela é uma só e essa intensidade é positiva, por mais que muitas vezes possa não parecer. Já imaginou o tamanho de sua história quando tiver 50 anos? Já tem? Então já sabe! A nossa vida é um roteiro sim. Talvez você possa molda-lo. Mas a chance de não ser como você realmente imaginou é grande. Mas se conseguir aproximar disso, sinta-se um vencedor. Sim, a vida é um morde e assopra como esse texto.

A verdade é que a vida te engana. E você não tem saída. Agora sorria e vá!

segunda-feira, 26 de março de 2018

Imunização racional


Dentre tantas obras fantásticas que o fez se tornar um dos maiores monstros da música nacional, Sebastião Rodrigues Maia escreveu uma canção chamada “Bom senso”. É uma das músicas tupiniquins que eu mais aprecio, talvez por me enquadrar nela. Mas quantas pessoas não se enquadram?

Se você nunca ouviu, abra o youtube agora e faça essa benfeitoria para os seus ouvidos e cérebro. “Já senti saudade, já fiz muita coisa errada, já pedi ajuda, já dormi na rua”. Você certamente já fez uma ou todas essas coisas. “Mas lendo atingi bom senso, a imunização racional”. Não há nada melhor para o desenvolvimento do indivíduo do que a leitura. Ela é um complemento da experiência. Lendo atinge-se o bom senso. A leitura ensina a viver, ensina a desvendar, a entender, a interpretar, a pensar.

Tim Maia colocava em suas letras a sua própria vida. Talvez por isso me cativa tanto e não sai dos meus fones de ouvido por muito tempo. E em “bom senso” ele descreve tantos de nós e ele mesmo. Nós somos como Tião. É vivendo que se aprende, é lendo que se atinge o ápice da capacidade cognitiva e racional.

domingo, 25 de março de 2018

Inspirações e costumes: minhas loucuras


A lente de contato irritou. Eu extrapolo, fico com ela durante o dia todo, até o momento de deitar para dormir. Mas foi no momento em que eu tive vontade de sentar aqui e escrever este texto que eu a retirei dos olhos e peguei meus óculos.

Eu ligo meu computador quando recebo uma inspiração, preparo algo para beber e me ponho a dissertar. Hoje eu resolvi escrever sobre como faço isso aqui existir. Eu tenho devaneios de assuntos diversos. Viajo em minhas ideias, divago por oposições ao meu próprio pensamento e chego a uma conclusão que nem sempre é a mesma do começo da reflexão. E eu gosto de quando é assim.

Eu tomei um gole do cappuccino que preparei para sentar aqui agora e quase derrubei. Mas hoje eu não ficaria enfurecido. É domingo a noite, momento de ócio, solidão e melancolia. Mas eu estou apenas com o ócio e mais neutro em emoções do que nunca. Diria que neste momento eu sou uma pessoa fria, quase gelada. Esse texto é apenas a necessidade de colocar alguma coisa na página de word em branco que foi transferida para essa página com fundo marrom na internet. Eu gosto desse ambiente marrom, você gosta também?

Eu tiro inspiração do cérebro vazio, da bebida que eu tomo, da música que eu ouço, dos livros que leio e até de algo que uma pessoa disse pra mim em alguma rede social. Eu adoro quando despertam em mim uma curiosidade. Eu só não gosto quando minha cachorra late ou não deixa eu ver TV porque fica entrando na minha frente. Está passando um show na TV neste momento e eu coloquei no mudo. Está com uma cara de show muito ruim. Eu não conheço a moça que canta, mas por mais que seja ruim ela expôs o seu “eu” nas canções e isso é bom. Eu faço isso aqui, mesmo sem saber se quem lê gosta.

Eu não gosto de quando pessoas com conversas agradáveis ficam dias sem falar comigo. Mas eu não digo isso a elas, tenho medo de ser inconveniente. Por outro lado eu fico feliz quando alguém lembra de algo bom que eu fiz ou estou fazendo. Eu não sou daqueles que gostam de ficar expondo tudo que faz, mas recentemente eu descobri o tal do “status” do whatsapp e achei engraçado. Mas não vou ficar muito tempo, como fiz com o snapchat. Tem coisa que é muito banal e eu não tenho paciência de permanecer.

Eu não fumo. E não sei como. Eu tinha todos os motivos para fumar, mas não gosto. Mas se você for fumar alguma coisa perto de mim, por favor, que seja maconha. Eu odeio cigarros. Eu nunca coloquei nada de fumo na boca. Meus vícios são outros. Eu sou viciado em café, eu adoro tomar cerveja, tomo a qualquer momento em casa, sozinho. Dá vontade, eu abro uma lata e tomo. Uma só. Eu sou viciado em erva mate enquanto estou tomando meu tereré. Eu tenho a impressão de que eu não vou parar de beber nunca. E quando eu tenho de parar fico triste. Eu sou viciado em ler, embora eu não esteja lendo nada a longo prazo agora e há algum tempo eu não estudo nada.

Eu sou viciado em escrever. Por isso eu tenho essa página. Aqui eu gosto de expor coisas para que as pessoas reflitam e também escrevo alguns contos, como talvez você já tenha lido. Eu já perdi várias ideias por não ter anotado achando que não esqueceria. Comprei um bloco de notas físico porque não me dou tão bem com notas do celular. Fiquei andando com ele por uns dias, anotei umas ideias, coloquei-as em prática e depois abandonei o bloco. Agora eu tenho ideias, mudo de música e as esqueço. Eu tenho pronto um roteiro de livro, mas tenho medo de escrever. É sério. Não é pânico, é medo. Então, a qualquer momento eu vou começar. Sobre isso eu posso falar em outro texto.

Eu vim aqui neste domingo a noite de ócio escrever apenas algumas coisas sobre mim. Não deve ser interessante pra você, mas serviu para eu pôr pra fora um pouco dos meus costumes, sobre minhas inspirações. A vida me inspira...e eu escrevo. Meu cappuccino acabou, então eu vou parar por aqui.

quinta-feira, 15 de março de 2018

O poder da memória


Dentre tantas outras referências, vivemos a época do registro. Todo e qualquer momento considerado especial na vida de um indivíduo, está aberta a câmera do smartphone e um clique é feito frente a sorrisos e poses. E se a imagem não ficar boa, sob avaliação de alguém, ela é refeita. O registro é, na maioria das vezes, exposto nas redes sociais para que as outras pessoas vejam. Em shows as pessoas filmam, fotografam, gravam áudio. Em pedidos de casamento um terceiro filma. Em encontro com amigos num bar é feito uma álbum cheio de fotografias. Mas o melhor e mais importante registro é o da memória. A minha memória tem mais espaço que o meu HD de 500GB ou meu cartão de memória de 16GB do smartphone. A sua também tem. O espaço da memória humana é maior do que qualquer objeto ou plataforma mensurável.

Portanto, a melhor forma de registrar um momento é não esquecendo que um dia ele ocorreu. Se um dia você tiver um momento de alegria comigo, nunca se esqueça. Eu também não esquecerei e o registro estará feito. O mais valioso deles!