quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A viagem dos sentidos

Recebi de uma amiga uma dessas cartas modernas, que chegam pelo computador, contando que ela faria uma viagem “maraviwonderful” com o namorado para um lugar desses cheios de natureza, de pernilongos, de céu azul. Em resumo, ela estava mais feliz que porco na lama.
Demorei a entender a razão de tanta alegria por parte da Juju, afinal, ela é cega, não consegue ver nem alma penada em cemitério. Que graça teria, então, viajar sendo incapaz de enxergar as belezuras de um lugar, o rebolado das pessoas, as cores locais?
Pra completar, a companhia da moçoila, o amado, também é prejudicado das vistas, ou seja, não poderia traduzir o “visu” do local visitado com palavras. Seriam dois perdidos no escuro? Afinal, é senso comum (e errado) achar que os cegos só vêem o breu.
Foi então que eu mesmo decidi viajar...na maionese dos meus pensamentos e percebi que o passeio da Juju poderia ser muito mais proveitoso que qualquer outra visita com uma expectativa absolutamente imagética.
Viajar é bem mais que apenas ver, de fato. É se deliciar com o gosto de novos sabores – exóticos, doces, azedos -, é descobrir que os passarinhos podem fazer toadas diferentes, que a areia da praia pode ser mais grossa ou bem fininha, que as flores podem ter odores novíssimos.
E a Juju disse que é capaz, inclusive, de curtir a diferença da intensidade com que o vento bate na cara, o barulho dos carros no trânsito, a graça de um sotaque, a maneira como as pessoas interagem, a organização nas ruas, a profundeza do mar. Com tudo junto, ela forma para as recordações muito mais do que imagens de fotografias.
O povo com deficiência, seja ela sensorial ou física, quer, pode e tem o direito ao turismo. A forma como eu vejo o mundo e me divirto nele não é a única possível, relaxante e prazerosa. Quem passeia não leva apenas as pernas e os olhos, leva a boca, o nariz, os ouvidos, a pele, os sentimentos.
Na carta da minha amiga, ela relatou também a surpresa do dono da pousada em que ficará hospedada ao saber que o casal de hóspedes tinha deficiência visual. Ele respondeu assim à demanda:
Fizemos uma reforma recentemente para transformar a pousada em um ambiente ecologicamente correto, porém nunca pensamos em também criar recursos para atender, por exemplo, os cegos. Queria pedir desculpas pelo fato de não estarmos adaptados para recebê-los. Mas você, com sua maneira de ‘ver’ as coisas, já está me mostrando de que precisa: convívio com pessoas simples, educadas e que tenham amor nos seus corações. Isso nós temos de sobra.
Boa vontade é bacana para resolver pequenas questões de acesso. Uma cadeira de plástico para os atrapalhados nas dificuldades motoras tomarem um banho, um quarto com um pouco mais de espaço para o cadeirante não se esfolar nos móveis; informações em braile para quem não vê, noções de Libras para uma comunicação básica para quem não ouve.
Mas, o conceito de acesso universal envolve dar a todos condições de igualdade para que consigam curtir suas vidas e suas viagens de maneira que melhor lhes convier e de forma independente. A história da Juju é só um exemplo para que mais gente abra bem os olhos para isso.

                                                                     Jairo Marques
                                                                     Colunista da Folha de S.Paulo

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Os limites do sonho e da vida

A relatividade do ‘viver’ e do ‘sonhar’ é uma enorme barreira para uma escolha entre os dois. Algumas vezes sonhamos aquilo que queríamos viver, outras vivemos coisas melhores do que qualquer sonho. O sonho pode ser um objetivo de desejo da gente, a vida é o que temos que fazer, sem escolha.
O problema do ‘viver’ é que não volta, não há remédio para o arrependimento. A vantagem do sonho é que ele não passa de uma reflexão, um pensamento passageiro que, muitas vezes, não lembramos mais em vida. A desvantagem do sonho é justamente a vantagem em outras ocasiões. Quem não gostaria que aquele sonho maravilhoso se tornasse real? O problema é que a utopia do sonho se torna barreira quando a consciência nos retorna e o sentimento de frustração nos invade. É gostoso quando o sonho nos faz recordar de algo bom da nossa vida ‘offline’, e esta é a hora em que os dois se encontram, se entrelaçam.
O fato é que sem vida não há sonho e sem sonho não há esperança; o subconsciente que alimenta a esperança de seguir em frente em busca do real. Então, não há melhor, nem mais bonito. O que há é um equilíbrio nos momentos do ‘sonhar’ e do ‘viver’. O ‘sonhar’ não tem limites, não tem fim. Quanto ao ‘viver’, o limite a Deus pertence.

Ps: E viver um sonho online é sentir o desespero de quem quer viver a realidade que este  sonho nos mostra como possibilidade. Reflita.

domingo, 26 de setembro de 2010

O exercício da crônica


Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se ele diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera, em que, com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo. Se nada houver, resta-lhe o recurso de olhar em torno e esperar que, através de um processo associativo, surja-lhe de repente a crônica, provinda dos fatos e feitos de sua vida emocionalmente despertados pela concentração. Ou então, em última instância, recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado.

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Corinthians Do Meu Coração



És grande no esporte bretão,
o passado ilumina tua história,
Ciente da tua missão,
vitória, vitória, vitória.
Corinthians do meu coração,
Tu és religião de janeiro a janeiro,
ser corinthiano é ir além, de ser ou não ser o primeiro,
ser corinthiano é ser também, um pouco mais brasileiro.

Tens a tradição,
de um clube tantas vezes campeão,
pelos teus rivais temidos,
pela tua fiel, querido.
ser corinthiano é ir além, de ser ou não ser o primeiro,
ser corinthiano é ser também, um pouco mais brasileiro.

És grande no esporte bretão,
o passado ilumina tua história,
Ciente da tua missão,
vitória, vitória, vitória.
Corinthians do meu coração,
Tu és religião de janeiro a janeiro,
ser corinthiano é ir além, de ser ou não ser o primeiro,
ser corinthiano é ser também, um pouco mais brasileiro.
Ser corinthiano é ir além, de ser ou não ser o primeiro,
ser corinthiano é ser também, um pouco mais brasileiro.
Ser corinthiano é ir além, de ser ou não ser o primeiro,
ser corinthiano é ser também, um pouco mais brasileiro.
(Toquinho)

PARABÉNS CORINTHIANS, PELA SUA LINDA HISTÓRIA AO LONGO DE SEUS CEM ANOS!
TU ÉS O QUE HÁ DE MAIOR PERANTE SUA TORCIDA QUE NÃO O ABANDONARÁ JAMAIS!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

As últimas da bola!

...E o Inter, quem diria hein?! Será campeão novamente. Com um time que, no começo do ano, foi hostilizado e tido como fraco, foi chegando como quem não quer nada, dispensou o sempre favorito São Paulo e já deu um passo e meio para o título; pra mim já é campeão. Mas o que mais me surpreendeu foi que o cabeçudo do Milton Neves acertou antes da Libertadores começar, como é que pode? Mas o título está ficando em boas mãos, a estrutura que o Inter oferece aos seus atletas justifica as vitórias. Agora quem não está nada feliz com esta situação é o torcedor do tricolor gaúcho, Grêmio. Até o ano de 2006 o Grêmio tinha um título da Libertadores contra nenhum do Inter. Agora assiste de camarote o inter (que tem menor torcida do que o Grêmio, segundo pesquisa do Lance!) o ultrapassar, conquistando dois títulos; chora tricolor, porque este já tem dono.
Em São Paulo as coisas estão mudando pro lado santista. Ontem tomou uma sapecada do Avaí no Pacaembu e ficou difícil reverter a vantagem na Ressacada. É santistas, vão se conformando aí porque André já deu adeus, Robinho não volta mais, Neymar e Paulo Henrique é só questão de tempo, de pouco tempo. São paulinos querem fugir da crise, vindo com esse negócio de Jason. Vai tirando o cavalinho da chuva porque aquela fase invencível do São Paulo já foi embora há algum tempo e prepare-se para a crise porque o dinheiro acabou; contente-se com uma vaga na Libertadores, caso conquistada. Os Palmeirenses estão soltando fogo pelas ventas. Além da provável desclassificação na sul-americana (perdeu o primeiro jogo em Salvador por 2 x 0 para o Vitoria), o Felipão falou “não me cobrem nada este ano, me cobrem no ano que vem”. Ahhh tá fácil, o time cai pra série B, sobe ano que vem e o Felipão vira o fodão, o máximo, olha que legal neh?! Ai o Valdívia chega e o começo de todas as respostas é “então, eu não vou resolver tudo sozinho neh?” ...ixiii! Precisa reforçar a zaga porque a cozinha tá bagunçada. No Corinthians estava aquela expectativa pra volta do Ronaldo. Ei que vem as imagens do tal, a torcida vira e grita “vamo Iarley, tu tá bem cara”. Não dá né Ronaldão? Não dá cara. Tu pegou a pança que o Faustão jogou fora brother? Não é possível que o cara treina todos os dias, corre, perde pesos e mais pesos (jogadores perdem muito peso só nos treinos) e aquela barriga super saliente não diminui; algum médico me explica, por gentileza? Sem condições nenhuma de voltar, ainda mais agora que o time briga com o Fluminense pela liderança. Melhor manter quem vem jogando e continuar no ritmo certo. Por falar em Fluminense, este é cavalo paraguaio; lembram do Atlético-MG ano passado? Então.
Mas eu acho que este Brasileirão não vai sair desta ‘mornice’ até o final. Todo mundo ‘preparando time pro ano que vem’, a conversa é sempre esta. O campeonato já começou faz tempo e tem gente dormindo aí hein, depois fica tarde pra recuperar, viu senhor Luxa?!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Smigols e múmias à parte, Brasil corre riscos



Confesso que, até então, não tinha conhecimento do debate dos candidatos a Presidente da República, na TV Bandeirantes. Mas quando cheguei à minha confortável toca, liguei o computador e pasmei. Em vez de comentários da semi-final da Libertadores (São Paulo x Internacional jogavam simultaneamente ao debate), haviam comentários sobre o debate e os TT’s do twitter eram completamente políticos. Orgulhei-me do Brasil...tah, mentira.
O jogo estava bom pakas, visto que não conseguia deixar a TV apenas no debate, troquei pra lá, troquei pra cá. Mas mesmo assim consegui fazer algumas constatações que descreverei agora. Nunca fui a favor deste ou daquele e não tenho ‘raiva’ nem de um e nem de outro candidato, tenho de todos...rs! Plínio usando o auto-preconceito para nos jogar contra os outros candidatos...Será que ele pensa que esses telespectadores são os mesmos de 1950? A Marina querendo recitar poesia me fez rir até me doer a barriga, ela é sim o Smigol, sem dúvida. A Dilma ‘dando uma de Lula’ foi deprimente companheiros. E o Serra com seu cinismo absoluto desde que o conheço por candidato, me faz olhar pra ele com nojo (e não adianta chorar no final falando de filhos, não. Porque a minha opinião de que você é um sacana, hipocondríaco [kkkk] não vai mudar). Reparem em uma coisa: Todos os candidatos ‘querem o bem’ para o Brasil, mas não concordam em nada, então para que debate se todos têm uma visão diferente perante as mesmas coisas? O poder de fugir do assunto também me surpreende em debates como estes.
Agora para você, que não gosta do Lula, me responda uma coisa: o debate há quatro anos teve um nível mais alto ou mais baixo (em termos de conhecimento e produtividade) que este? Porque este debate para mim foi uma piada, sério...foi de nos fazer rir, se eu estiver errado me corrija! Nenhum destes candidatos estão prontos para estar à frente do Brasil...A Dilma nem sabe o que estava fazendo ali e eu tenho medo do Serra privatizar o Brasil, como fez Fernando Henrique Cardoso.
Concluí que foram muito mais produtivos os lances do jogo, mesmo o frango do goleiro Renan, do Inter, do que este debate ridículo que os candidatos propuseram-se a fazer ontem. Parabéns aos dois times que tiveram a competência de chegar até ali, e ao Inter por ter a chance de disputar mais um mundial interclubes. Quanto aos candidatos do debate, só lamento. MEU VOTO É NULO!  

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Contos

A dor do erro e o efeito da saudade
Sevilha, Espanha. 27 de Julho de 2007. A cidade ainda acordava quando Margarita saía para trabalhar, de uma casa na qual tinha saudades, mas que não tinha intenção de voltar. Voltou. Sua condução era um ônibus e seu caminho não era longo. A chegada ao restaurante Ravier, onde agora trabalhava como garçonete, fez Margarita refletir sobre o que lhe havia acontecido há duas semanas.

Huelva, Espanha. 15 de Junho de 2007. Pablo era consultor de vendas e trabalhava em uma concessionária de carros no centro da cidade. Enquanto isso, Margarita se atarefava em fazer o café e a janta em um restaurante francês na zona sul de Cádiz; trabalhava no período da tarde/noite. No dia anterior àquele, a jovem de cabelos negros e longos em um corpo muito admirado pelos rapazes da região, notou apreensão em seu noivo. Pablo acordou agitado e com o rosto fechado, Margarita não o via assim desde a época de finais do campeonato de rugby, na qual Pablo participava antes do noivado.

Pablo fez questão de atender àquela cliente, conversaram durante um tempo e saíram no carro dele. Era estranho ver o carro de Pablo parado em frente a sua casa naquela hora do dia, mas lá ele estava. Sem que ninguém percebesse adentrou sua casa junto a uma mulher de vestido preto e cabelo encaracolado. A casa tinha o perfume de Margarita, mas naquele momento Pablo não tinha olfato.

- Esta será a ultima vez, Pablo.
Pablo sempre confiou em Carlota desde que começaram a sair; mas ela o traiu. No final de tudo, Carlota, propositalmente, deixou cair no banheiro um de seus vestimentos, o mais baixo. E saíram.
Margarita sempre chegava mais cedo. Mas naquele dia, Pablo notou o silêncio em sua chegada; a ausência das roupas de Margarita no guarda-roupa o fez decifrar o que estava acontecendo ali. Neste momento, passaram pela cabeça de Pablo todas as aventuras passadas ao lado dela; viagem à Alemanha, piquenique no parque de Córdoba, o passeio na praia, os jogos de rugby. E ele pôde sentir o gosto do arrependimento e aquela sensação de dor no peito.
Àquela altura, Margarita já estaria de volta à casa de seus pais, em Sevilha, pensando no por que estaria acontecendo algo tão inimaginável, até então. Ele se deitou, sem ao menos tentar explicar-se; já sabia o culpado. Apenas tentou dormir, em vão. Ao nascer do sol, Pablo levantou-se e, sem rumo, caminhou pela cidade vazia. Chegando à praia, ele pôde reparar nos passos na areia molhada, e isso lhe fez sentir o que jamais havia sentido por Margarita. A saudade.
Sevilha, Espanha. Abril de 2009. Margarita casa-se com Esteban e já espera aquele que será seu primeiro niño, o sonho de sua vida. Estuda direito e pretende ser delegada; Esteban é dono de uma construtora civil.
Huelva, Espanha. Maio de 2010. Pablo Pedrosa Martins se suicida na ponte de pesca do Mar Mediterrâneo, depois de escrever, com pegadas na areia, um nome feminino, que a polícia busca significado.